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Mostrando postagens de julho, 2008

dois jägers e duas tequilas

Quando saía, queria ser vista. Claro. Embora sua altura não contribuísse, sempre sentia que aquela sombra ou aquela roupa ia fazer efeito. Bom, nem sempre fazia. O motivo? Sempre o mesmo. Todas as suas amigas o tinham na ponta da língua. Inclusive ela mesma. Mas não é algo que se mude da noite para o dia. Ou melhor, do dia para “A noite”. Não. Aqueles pensamentos indesejáveis (sim, indesejáveis, ela não queria tê-los) pareciam agir como seres controladores ou como qualquer coisa que estivesse ali, sempre por perto, somente para julgá-la e condená-la, como se dissessem “não, você não o tem direito de se sentir bem”. Estranho? Demais. Ela sabia. Mas ela sabia também que esses pensamentos não estiveram sempre ali, no controle. Não. Um dia, eles não existiam. Um dia, há muito tempo, ela nem sonhava que poderia se sentir tão fraca, tão desinteressante. Há muito tempo, ela sorria com mais facilidade. Na verdade, tinha crises de riso com tanta freqüência que, aos olhos dos outros, ou ela era ...

Escritores não foram feitos para serem amados

Escritores não foram feitos para serem amados. Escritores foram feitos para amar. Para amar e sofrer. Porque sem saber o que é dor, sem saber o que é o amor (em 1ª pessoa e sempre no singular) não é possível escrever. Não é possível ter algo para dizer. Dizer e fazer o outro sentir. Mas, ser amado? Não! Um escritor não precisa disso. Posso fingir que sou amado. Mas não posso fingir que sofro. Posso fechar os olhos e imaginar outros olhos me observando enquanto durmo. Posso inventar uma história em que eu sou o grande e único e verdadeiro amor de outra pessoa. Mas não posso fingir que derramo uma lágrima. É preciso sofrer. Mas não é você quem escolhe. Você não decide ser um escritor e então, decide sofrer. Primeiro você sofre. Depois, torna-se um escritor. Mas não basta sofrer por um ou dois dias. Ou por um ou dois amores. É preciso sofrer sempre, constantemente. É preciso estar amando sempre. Amando e desamando por toda a vida. Mas ser amado? Isso nunca! Claro, você até deseja ser amad...

No ônibus

Entrei no ônibus. Eram 6:46 de uma manhã de inverno. Com as pálpebras ainda lutando contra a inércia do sono, dei bom dia ao cobrador. O sorriso entusiasmado que ele me deu deixou entrever que conhecia empiricamente minha batalha matutina. Como de costume, escolhi um assento do lado esquerdo, na janela, de onde eu poderia executar minha tarefa de juiz sem julgar. Esse era o meu momento. Reunião de pais, conselho de classe, diretor totalitário, tudo isso podia esperar. Assim que eu chegasse ao meu destino logo esses assuntos teriam de volta seus lugares em minha cabeça. Mas não agora. Não. Do meu assento eu podia observar dois mundos: Um que corria lá fora, louco, apressado, numa harmonia abstrata regida pelo caos. O outro era contido. Forçadamente contido. Alguns moradores do ônibus não se preocupavam. Riam, discutiam sobre colesterol, davam conselhos às mães cujos bebês choravam. Mas a maioria recolhia-se a murmúrios ternos, a pedidos quase inaudíveis de com licença. E eu fazia parte ...