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Mostrando postagens de 2019

Relacionamento com um espectro

[ Tudo eram só imagens. Me afogo em todas elas] De tantas imagens a lhe habitar a mente, não conseguia entrever o real no meio do caos imaginário. Ah sim, as imagens não eram reais - tudo fantasia. Por sentir demais, por sentir de menos Colocava-se a todo instante para fora do mundo orgânico, material Para o além-ar, falso éter: o mundo de mentirinha. Nesse mundo, o espectro era tudo o que havia Espectro de luz Espectro de sombra Espectro de mim Espectro de ti E como odiava o espectro, as imagens: o mundo de mentirinha. Porque se espectro era tudo o que havia, então naquele mundo nada mais existia, além de si mesma. Si mesma, sozinha, a criar um milhão e oitocentos e noventa e nove mil imagens minuto a minuto, segundos após segundos, o tempo todo, a cada hora No mundo do espectro não há companhia, não há afeto, não há amor Só imagens, de espectros Que não enchem a barriga. Mas ao menos a solidão era colorida.

Suspensão em três atos

I Pausa. Corta. Tempo. Interrompo as tarefas do dia, o trabalho da semana, o acordar-viver-dormir-acordar do mês, ano após ano, seguidos, ininterruptamente. Paro com tudo isso, nesse momento, agora: fico, então, em suspenso. As tarefas do dia são feitas: limpo a casa, varro o chão - o pano passado a cada 15 dias, a retirada do pó, no entanto, menos frequente. O trabalho, na empresa, segue seu ritmo, sem dores, sem reclamação, tudo nos seus conformes. Você entende que, como viver a rotina, ela também já entendia, está superado: amadurecimento, sim; responsabilidade, também. Etc, etc, etc: confere. Tudo confere. Mas, em algum ponto, naquele ponto, tudo para, eu paro: garota interrompida. II Uma bola. Não. Um círculo. Quase. Talvez uma bolha. Sim, uma bolha às avessas, ao contrário, verdadeiro buraco negro - denso, extremamente; mas alguém sabe o que há ali? Eu não sabia, não sei. Quando tento descrever meu mundo interno não consigo. Mas o pressinto, e ele é uma bolha ao con...

O novo mandamento

O desejo era imenso. Não tanto por fugazes e efêmeros prazeres daqui e de acolá: um lindo cosmopolitan carmim, a boca rosada e perfeitamente delineada que me olhava do outro lado da mesa, o perfume que exalava de seu corpo. Não. O desejo parecia sublime, quase que de outro mundo - talvez porque realmente fosse. Não era daqui, do mundo terreno, telúrico, da Terra redonda - com seu recôndito interior venoso, por onde rios de lava serpenteavam, devorando e, ao mesmo tempo, transmutando a matéria. O desejo era imaterial, indizível e, por isso mesmo, impossível de ser satisfeito. Podia tentar satisfazê-lo e tentava, tateando por entre corpos - o seu, o de outros-, por entre camas e suores, entre doces e outras delícias, mas tão pobres, tão fracas. Buscava plenitude, mas tudo o que encontrava era a pá: a pá que cavava, cada dia mais e mais, o buraco que lhe engolia de dentro para fora. E tão cansada do buraco estava - achava que só ela sabia o que era isso. Mas que engano. Se engana e, e...

Os melhores diálogos da história

(reeditado/republicado) “Acho que te dei algumas porradas com a cadeira”. “O quê?”, “A cadeira, com ela te dei algumas porradas, acho”. Socorro, um buraco para me enfiar. Será que ela percebeu minha cara, vermelho vermelhusco vermelhante vermelhão? Provavelmente sim. Há uns sete dias que já vinha elaborando esse grande pretenso início de diálogo na minha cabeça – vai mente, trabalha -, e eu sabia que isso era tudo o que eu não deveria estar fazendo naquele momento, ou em qualquer momento at all. Mas a mente, eu mandei ela trabalhar não foi? E ela trabalhou.  Há uns oito, nove dias eu a havia visto pela primeira vez e desde então estava ansiosamente ansiosa por algum pretexto, qualquerzinho, que pudesse me dar uma compreensível e justificável desculpa para ligar uma sílaba a outra, uma palavra a outra e formar a frase que, ao dizê-la em voz alta, quebraria gelos, silêncios e, como num passe de mágica (ou expectativa), seria a frase que iniciaria o diálogo que me levaria a conhece...

Não é sobre sermos perfeitos

[ninguém entra, nem eu saio                             aqui desse coração] Não é sobre sermos perfeitos. É sobre entrega, viver a vida com o coração. Ser saudável emocionalmente é bom, ser maduro é bom, mas nada disso é tão útil assim quando o assunto é amor/amar. Parece que não - é um contrasenso, contraintuitivo? -, mas é isso mesmo. Porque o amor não erra, não machuca, não aprisiona, não sufoca, não dói, não mata. Ele é natural, intuitivo, auto eficiente. O que erra, o que machuca, o que aprisiona, o que sufoca, o que dói, o que mata somos “nós”, agindo na ausência do amor, ou melhor, É a própria ausência de amor em ação - em mim, em você. Mas tá tudo bem. O poder do amor é grande demais, e assusta demais, (porque) ilumina demais - luz que cega os olhos. Mas só num primeiro momento, logo os olhos se acostumam, se ajustam à luz. Você percebe então - talvez - que aquela dor da cegueira momentânea er...

Eu

O universo sempre foi gentil comigo, enquanto eu mesma não conseguia ser. O universo me deu flores, me deu amores, enquanto eu mesma não sabia os receber. Não é que eu não quisesse, ou apenas achasse - como realmente acho - que não fazia por merecer. Era pior que isso. Era indizível, mas também não o era apenas por falta de palavras, era porque as palavras nunca haveriam de ser suficientes para acordar o que estivesse adormecido em inconsciente - coração? -; despertar o que estivesse quase como encravado em minhas entranhas, enraizado mesmo, como uma árvore milenar - só que sem a copa, sem os galhos, sem o verde, só a dor. E quem poderia fazer algo a respeito? Ninguém. Ninguém a não ser eu mesma. Ninguém a não ser esse próprio coração, que dói, tanto, dói tudo, machuca e corrói e desgasta e se quebra. Se parte em mil pedaços, sem forças para respirar. O ar dói. O azul do céu dói, o roxo da flor mais linda dói, porque belos, porque naturais, porque natureza, porque vida pura e just...

Big Brown Eyes

Big brown eyes. - Ai, mas por que você tá escrevendo em inglês? - Não interessa. Big brown eyes. Se ela tinha alguma dificuldade - e como tinha - em descrever, ou mesmo contornar uma ligeira e sutil e efêmera silhueta que pudesse, ainda que muito pouco, descrever, afinal, uma personalidade - identidade? -, esta era uma frase - expressão - que parecia servir muito bem a esse propósito. Se ela era algo, esse algo era um grande par de olhos castanhos. Bem grandes, grandinhos, redondos na medida certa, na medida entre o suave e o acolhedor, mas com lampejos de fúria, luxúria, paixão e dor. Grandes olhos, cílios retos, retos como sua moral, por vezes aprisionadora - duas correntes prendendo-la pelos pulsos (um pulso já marcado pela intensidade da sua alma, pulsante como o branco das cicatrizes paralelamente paralelas). Big brown eyes. Escuros, mas não tanto, nem toda dor ou sombra desse mundo poderia lhe apagar totalmente a claridade e luminosidade que brilhavam cintilantes quando o...

Nós

O café da manhã. O pão com manteiga. O barulho do café borbulhando na cafeteira, italiana; o cheiro quase narcótico da bebida, envolto no quentinho do vapor. A louça na pia e depois a louça lavada, escorrendo no escorredor. Depois, o silêncio no sofá, uma mantinha nos pés. Você no chão, sentada no tapete, fronte virada para a varanda a cortar as unhas do pé. O clic clic do cortador. Uma vida. Um amor. Uma história. Nós.