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Os melhores diálogos da história


(reeditado/republicado)


“Acho que te dei algumas porradas com a cadeira”. “O quê?”, “A cadeira, com ela te dei algumas porradas, acho”.

Socorro, um buraco para me enfiar. Será que ela percebeu minha cara, vermelho vermelhusco vermelhante vermelhão? Provavelmente sim. Há uns sete dias que já vinha elaborando esse grande pretenso início de diálogo na minha cabeça – vai mente, trabalha -, e eu sabia que isso era tudo o que eu não deveria estar fazendo naquele momento, ou em qualquer momento at all. Mas a mente, eu mandei ela trabalhar não foi? E ela trabalhou. 

Há uns oito, nove dias eu a havia visto pela primeira vez e desde então estava ansiosamente ansiosa por algum pretexto, qualquerzinho, que pudesse me dar uma compreensível e justificável desculpa para ligar uma sílaba a outra, uma palavra a outra e formar a frase que, ao dizê-la em voz alta, quebraria gelos, silêncios e, como num passe de mágica (ou expectativa), seria a frase que iniciaria o diálogo que me levaria a conhecer o céu e o inferno.
Pois nem um, nem o outro: somente o limbo.

“Acho que te dei algumas porradas com a cadeira”. “O quê?”, “A cadeira, com ela te dei algumas porradas, acho”.
Socorro, desse buraco não sei se volto a sair. No entanto, a resposta, vinda do lado de lá - lado magnético, hipnotizante, irresistível-, foi adoravelmente simpática e deboas: "nah, tá tudo certo".

Tá tudo certo. Tal tranquilidade em sua fala não deixou de me fazer indagar se por ali, daquele outro lado, debaixo de toda a naturalidade, não haveria também uma mente e almazinha nervosas, ansiosas, tentando com todas as suas forças juntar A mais B, uma palavra a outra, para formar uma resposta digna de ser proferida, também em voz alta.

E foi uma boa resposta, considerando tudo isso. Mas aí, a vermelhidão já havia me tomado conta e qualquer pseudo confiança que eu pudesse ter já havia escorrido pelo ralo, até chegar ao gramado, lá fora, do refeitório - ou da vida, para falar a real. E, então, por ali mesmo, encerrou-se o que mal havia começado.

Mas foi justamente quando toda esperança já havia ido por água abaixo, com direito a naufrágio de titanics – mas sem o iceberg -, quando, inclusive, já me levantava para sair do meu lugar – e para sempre amargar as palavras que não consegui dizer -, de repente, ouvi do lado de lá, em minha direção: “como que cê fez pra conseguir tomar toda a sopa?”. 

E então, ali estava, o segundo melhor diálogo da história. Pergunto-me quanto tempo levou para a construção de uma das sentenças mais geniais já formuladas pelo ser humano contemporâneo-pós-moderno.

Minha resposta foi rápida e, ainda que pega totalmente de surpresa, desprevenida de uma tréplica tão bem elaborada como as primeiras, foi capaz de dar conta e levar adiante o ciclo dos melhores diálogos já desenvolvidos pela humanidade. Mas por pouco tempo. O processo de me levantar e ir embora já havia começado. E dali para frente, dali para as últimas preciosas horas daqueles dias, nada mais se falou, nada mais foi falado, pois, na verdade, não era preciso. 
Não. 
Tudo o que eu queria dizer – viver -, já havia sido dito, em cada troca de olhar, em cada pensamento, em cada passo que dei e em cada passo ouvido – vindo do lado de lá -, em cada momento de descanso, e mais ainda de trabalho.
Tem coisas que não precisam de palavras.


P.S.: O céu, ainda não veio, o inferno está distante. Mas o limbo, o limbo não é tão ruim. Na verdade, o limbo é o próprio paraíso para quem tem o pé na realidade.

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