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Mostrando postagens de 2020

Voz grave

Uma voz grave. Soando no ouvido. No meu ouvido — a orelha interna aguçada, atenta a cada nota, a cada respiro, curto ou longo ou rápido, os pelos do tímpano eriçados. Era uma voz grave, que cantava junto a outra voz, mais suave, mais baixa: meio fraca. Parecia fraca e era: fraca como o espírito que a entoava (que pena desse espírito). Mas a voz fraca — por vezes insistente, estridente, pedinte como um mendigo sem casa, como um indivíduo sem amor — também cantava forte, às vezes. Mas as notas, tão altas, tão agudas, estilhaçavam os copos, as taças, o cristal. O cristal do qual era feito seu espírito, embora opaco. Mas era só vapor — da água do hálito de um ser muito maior, muito mais grande, mais tirano. O vapor do bafo que lhe gritava, que lhe ameaçava, que lhe cantava cantigas de ninar, mas sem o sono (o sono que nunca vinha, só o medo, naquela criança). A voz grave deu forças, pois o ouvido, a orelha interna, a ouviu. Graças à deus. Graças deu, finalmente, a quem lhe fazia to...

O corpo

Um dia eu acordei e tinha dois braços e duas pernas – era o que vim a descobrir depois, que cada uma dessas coisas compridas que se alongavam para além do toquinho de massa que temos no meio da gente, chamado tronco, tinha nome.  Um dia acordei e, entre os braços e pouco acima das pernas, tinha esse toquinho de massa, chamado tronco, e de cada braço que saía do tronco outras partes se apresentavam: as mãos, com cinco dedos em cada uma.  Da mesma forma, de cada perna, esse amontado de massa se prolongava também em pés, cada um novamente – vejam só – com cinco dedos em cada pé. Do tronco, mais um alongamento se exibia: a cabeça, que fica acima do pescoço – dolorido, calejado do travesseiro que não servia para aliviar todos os tormentos e pesos de se estar vivo. Pois um dia eu acordei e estava vivo, em um corpo com membros, com pele e também outros órgãos e veias e ossos e uma mente que pensava. Que estranha sensação! De ter um corpo, ao mesmo tempo em que esse co...

Revisitâncias

I O processo de revisitar é muito engraçado. Você revisita um passado Uma memória Uma lembrança errada, um erro Revisita a história Mas não revisita um amor. Esse, jamais. Por que o que seria um amor revisitado? Um amor de novo? Novamente? Duplicado ou como quem pede bis? Repetição, repetindo: amor x amor = amor ao quadrado. Não. O amor nunca é revisitado. Mal das vezes é desassimilado na origem (da memória) e reassimilado com alegria ou tristeza - isso depende de quem revisita, depende do seu humor, depende das condições do tempo de determinado dia. Sim, a revisitância é variada, pois permite que eu adultere os elementos originários e primários do espécime em revisitação. Estado: revisitado. II E é assim que se perdem as cores. Assim que se perdem os cheiros - os primeiros da memória, de um amor passado.  Passado, embora não passageiro, porque o banco do carona nunca esteve livre (de verdade, sabe?). Foi assim que se perderam...

Uma canção sobre o amor (ainda que não pareça)

A sexualidade jorra de mim como um gozo ejaculado que esguicha na cara de quem o olha - mas não o provoca. De quem apenas espera que essa vergonha saia - legítima, mas ilegítima, apropriada de todo um ser, de todo um corpo, que não é seu, é meu. Apenas espera que a vergonha jorre e escorra na cara de quem o provoca, de quem provoca esse gozo - torto, vazio, truncado, sujo -, na cara de quem quase ri da outra cara, que se torce e contorce durante o prazer, que é impuro, condenado, vulgar. Sem valor, então sem amor. Sem o tesouro violeta da energia que a tudo percorre - neste corpo, naquele corpo, no teu corpo -, e é lindo. Mas não ali, não em mim, neste corpo. (Mas que eu amo este corpo, porque é roxo, cor violeta, da mesma cor da energia que a tudo permeia, a tudo constrói.) Joga, então, na minha cara, esse esguicho, esse gozo ejaculado, que quando ele me toca, me toca na minha cara. Ele não me envergonha, não. Porque ele é meu e eu sou pura, sou limpa, sou energia - e am...

Abertura

ouvindo Little Wanderer - Death Cab for Cutie [why am I still afraid of smile? well... not anymore then, she smiled.] Receber. A palavra é receber. Do que vem de fora, do que vem de dentro. E dentro é bem quente, úmido, latejante. Mas o amor... Ele é mais que isso. Ele é um sorriso É um colo É um abraço: É o que vem de dentro, direto pra ti, direto pra mim. E preenche Aquece Isola e acalma e aplaca a tormenta. Tormenta que continua, num redemoinho, a turbinar o coração os sentimentos as emoções - as emoções mais puras, da forma que vêm e que vão, que passam por mim me arrastando, mas me deixando aqui: inteira completa cheia... de amor. Por ti Por mim Para sempre. Receber... é a palavra do momento que somente calo se houver um sopro. Mas aqui não há sopro: só mormaço, maresia e calor. E as emoções pela primeira vez estão mais puras que nunca. Brilhantes deliciosas inofensivas porque não mais me arrancam a pele: só dão cores aos dia...

Paz

[O coração sempre sabe] Quando há paz, quem é você? Quem é aquele que digita as teclas do teclado, que sente o calor da luz amarela do abajur rosa. Quem? O coração sempre sabe o que faz. Por isso há paz. Por isso há escuta, atenta. Por isso há apenas o que é - ou melhor, apenas parece ser. Porque o que é para mim é diferente do que é para você. E tanto faz. Não há verdade - dura, concreta, intocável, imutável. Há vida, há calor, há chuva e gelo. Mas embora não haja nada, há algo: Amor Que não é nada mais do que paz Paz no coração Paz de espírito Paz... que me faz questionar: Quem você deixaria de ser se houvesse paz em seu coração?