Uma voz grave. Soando no ouvido. No meu ouvido — a orelha interna aguçada, atenta a cada nota, a cada respiro, curto ou longo ou rápido, os pelos do tímpano eriçados. Era uma voz grave, que cantava junto a outra voz, mais suave, mais baixa: meio fraca. Parecia fraca e era: fraca como o espírito que a entoava (que pena desse espírito). Mas a voz fraca — por vezes insistente, estridente, pedinte como um mendigo sem casa, como um indivíduo sem amor — também cantava forte, às vezes. Mas as notas, tão altas, tão agudas, estilhaçavam os copos, as taças, o cristal. O cristal do qual era feito seu espírito, embora opaco. Mas era só vapor — da água do hálito de um ser muito maior, muito mais grande, mais tirano. O vapor do bafo que lhe gritava, que lhe ameaçava, que lhe cantava cantigas de ninar, mas sem o sono (o sono que nunca vinha, só o medo, naquela criança). A voz grave deu forças, pois o ouvido, a orelha interna, a ouviu. Graças à deus. Graças deu, finalmente, a quem lhe fazia to...
Imaginar é possível.