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Mostrando postagens de julho, 2009

Like a blueberry night

O lugar fedia a suor e cigarro. Era quase possível enxergar o ar, amarelo sujo. O bafo ácido do ambiente parecia grudar em tudo que tocasse: cabelo, pele, roupas, alma. As luzes quase não existiam. As mesas de sinuca, ao fundo, distraíam mentes perdidas, jogadores sem sorte na vida. Não se viam pessoas. Viam-se apenas silhuetas, corpos grandes, gordos, baixos, tortos. Não se viam velhos, nem se viam jovens. Eram todos homens e algumas mulheres. Olhos e histórias não faziam diferença alguma num lugar como esse. - Vai querer o quê? – perguntou um homem baixo, careca, de pele sebosa, quase um globo humano refletindo as luzes difusas. - Rum, por favor. – respondi, quase arrependida por estar ali. Mas não chegava a estar arrependida. Apenas um pouco bêbada. A garrafa de vodka tinha se acabado há alguns minutos e o bar mais próximo era esse botequim caindo aos pedaços. Ao menos o bar tinha daqueles bancos redondos alcochoados que davam voltas em si mesmos. Ou era eu quem estava girando. O l...

Para onde tiver que ir

Sentada na rua, de noite. Luzes tão fortes, tudo é tão triste. Mas belo. O frio, ela nem liga, quase não o sente mais, de modo algum. Ele está ali, mas não se percebe. O calor do corpo a engana e não deixa a pele à mercê do arrepio. De um lado o lixo, a alguns passos tortos e bêbados de distância. Do outro, a rua, inteira, profunda, que leva ao longe. Leva onde somente o silêncio é capaz de acompanhar. Enquanto decide qual lado tomar, o vento rasga seu rosto, dilacera seus sonhos, mas divide consigo uma vontade imensa de viver, e de sair voando. O gato preto do outro lado da rua caminha devagar. O mistério daqueles olhos amarelos parece entender todo aquele momento, parece dizer “vá, para onde tiver que ir”. O meio-fio, gelado e sujo, segura seu corpo para que não caia mais, para que não afunde mais além daquele chão. O cabelo desarrumado se encontra com a poeira grossa daqueles que já pisaram por ali. Poeira de quem foi e já voltou, de quem foi e foi pra sempre. Uma garrafa de vinho, ...