O lugar fedia a suor e cigarro. Era quase possível enxergar o ar, amarelo sujo. O bafo ácido do ambiente parecia grudar em tudo que tocasse: cabelo, pele, roupas, alma. As luzes quase não existiam. As mesas de sinuca, ao fundo, distraíam mentes perdidas, jogadores sem sorte na vida. Não se viam pessoas. Viam-se apenas silhuetas, corpos grandes, gordos, baixos, tortos. Não se viam velhos, nem se viam jovens. Eram todos homens e algumas mulheres. Olhos e histórias não faziam diferença alguma num lugar como esse.
- Vai querer o quê? – perguntou um homem baixo, careca, de pele sebosa, quase um globo humano refletindo as luzes difusas.
- Rum, por favor. – respondi, quase arrependida por estar ali.
Mas não chegava a estar arrependida. Apenas um pouco bêbada. A garrafa de vodka tinha se acabado há alguns minutos e o bar mais próximo era esse botequim caindo aos pedaços. Ao menos o bar tinha daqueles bancos redondos alcochoados que davam voltas em si mesmos. Ou era eu quem estava girando.
O lugar me dava náuseas. E o sujeito magrelo, de nariz grande e ameaçador, me olhando dos pés à cabeça sentado a dois bancos de distância, também. Seu sorriso alcoolizado, cheio de pensamentos podres, me causava um asco tremendo, mas não tive saco pra me mudar de lugar. "Ele que vá a merda!", pensei, num súbito momento de impaciência.
Mas a verdade era que eu não estava ali apenas pela bebida. Ninguém está em lugar nenhum por causa dela. A bebida não é o fim, é o meio. É um ponto de vista. Arriscado, sim. É possível enganar-se, ainda que o que vemos através dela seja a mais pura verdade. Talvez nao a queiramos ver. Ninguém quer se descobrir fraco ou vulnerável. Muito melhor segurar uma pose, agarrar-se a uma crença, mentir sobre o que se sente. Não. Me encontrava nesse bar por outro propósito. Talvez, em busca de algum. Não sei bem.
- Mais um rum, por favor. - pedi ao seboso.
Que pele nojenta. Será que ele não se importava? E por que se importaria? Ele tinha um bar. Não era alguém que sobrevivia da aparência. Era um alguém livre, não fosse a dor de viver sozinho, uma dor já calejada, anestesiada por outras tantas dores e cachaças baratas.
Eu gostava de estar onde estava, apesar de tudo. O lugar não prestava, mas eu tampouco. Há alguns anos larguei a faculdade, a família, os amigos que a gente junta por essa vida. Abandonei aqueles dias de sorrisos fáceis, de felicidades simples, liberdade mentirosa na qual nos fazem acreditar. Um futuro era o que eu queria. Um futuro que fosse meu, seja o futuro que fosse.
Trabalhei em alguns lugares, juntei algum dinheiro. As cidades que conheci não eram assim tão bonitas afinal. Imaginava o mundo muito mais colorido do que realmente era. Não importa. Sempre preferi a verdade. E quanto mais feia era ela, mais eu gostava. O prazer de superar e encarar as coisas como elas são. Sem ilusões de mais, nem mentiras de menos. Tornar-me mais forte a qualquer custo.
Uma briga começou nos fundos, atrás de mim. Dei uma espiada por cima dos ombros e voltei para o meu rum. Não iria durar, os dois marmanjos mal conseguiam se manter em pé.
A noite passou, mais alguns runs vieram. Copos quebrados e garrafas estilhaçadas estavam sendo varridos, junto com a sujeira sem nome dos tantos que estiveram ali. O homem seboso perguntou se eu iria querer mais alguma coisa. Eu queria dizer que sim, queria dizer que queria o mundo, que queria uma água, que queria porcaria nenhuma. Mas só consegui balbuciar algumas palavras sem sentido algum.
- Você tem como ir pra casa? - argüiu o homem, a quem eu estava a ponto de chamar de amigo. Parecia sinceramente preocupado, apesar da testa franzida alegando totalmente o contrário.
- Acabei de me mudar, obrigada. - disse, sem saber saber o que tinha dito, apenas tendo certeza de que não fazia o menor sentido.
Do lado de fora, no ar gelado e cristalino da madrugada, enquanto caminhava em direção a lugar nenhum, tentava me lembrar do motivo de ter ido até aquele bar. "Eu queria alguma coisa, eu sei que queria alguma coisa". Meus passos iam quase sozinhos, enquanto meus pensamentos davam voltas. Não, o que eu queria não estava no bar. Nem naquela cidade.
Um mendigo atravessou a rua, quase sendo atravessado por ela. Ele andava meio caído pro lado, com os braços erguidos gritando que sabia: "eu sei! eu sei!". Quisera eu ter aquela certeza. Depois de muito andar, finalmente parei para prestar atenção aonde estava indo. A rodoviária estava a uns 20 metros a frente. Conferi quanto dinheiro tinha na bolsa, lembrei do que deixara pra fazer no dia seguinte e não tive mais dúvidas:
- Uma passagem de volta, por favor.
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