Sentada na rua, de noite. Luzes tão fortes, tudo é tão triste. Mas belo. O frio, ela nem liga, quase não o sente mais, de modo algum. Ele está ali, mas não se percebe. O calor do corpo a engana e não deixa a pele à mercê do arrepio.
De um lado o lixo, a alguns passos tortos e bêbados de distância. Do outro, a rua, inteira, profunda, que leva ao longe. Leva onde somente o silêncio é capaz de acompanhar. Enquanto decide qual lado tomar, o vento rasga seu rosto, dilacera seus sonhos, mas divide consigo uma vontade imensa de viver, e de sair voando.
O gato preto do outro lado da rua caminha devagar. O mistério daqueles olhos amarelos parece entender todo aquele momento, parece dizer “vá, para onde tiver que ir”. O meio-fio, gelado e sujo, segura seu corpo para que não caia mais, para que não afunde mais além daquele chão. O cabelo desarrumado se encontra com a poeira grossa daqueles que já pisaram por ali. Poeira de quem foi e já voltou, de quem foi e foi pra sempre.
Uma garrafa de vinho, vazia, pendendo do meio-fio. Um toque e ela cai. Vai cair e rolar, do jeito que for, até encontrar um buraco, uma pedra, algum bom motivo que a faça parar. Ela não quer parar. Quer seguir. Quer levantar, e sair, pra onde tiver que ir. Ela tenta ficar de pé. Tudo gira, e fica girando, confundindo as cores, misturando imagens. Borrões, apenas. Que giram, que a fazem lembrar de dias quentes, dos dias que passava horas num balanço, indo e vindo cada vez mais alto só pra que pudesse sentir o vento, o mesmo vento que a encontrou nesta noite. Mas não é o mesmo. Ela sabe disso.
De pé, entortando os passos, afunda o salto numa fenda qualquer. Cai. De joelhos. Uma cena patética não fosse o sangue, vermelho e sincero, que escorre pela perna, riscando a pele com sentimentos reais. Ardor. Que arde como um amor mal resolvido, como um mal-entendido, que a faz agoniar até que ele perca a força e resolva parar de arder. Mas nesse momento ainda arde. E a cada movimento arde cada vez mais. As lágrimas já não conseguem mais se conter. Simplesmente caem, derrotadas, cansadas daquela bravura que nunca foi o seu forte.
Apesar disso, sente-se bem. O mundo explodindo em sons, em caos, e ela ali, sozinha, somente frio e silêncio. E o ardor. Sabendo que não irá conseguir levantar novamente, ela se deixa ficar, deitada e quieta, numa paz que só se sente depois de tanta briga, de tantos conflitos. A paz de quem merece paz e descanso. Paz transmudada em felicidade, daquelas que completam, que preenchem, que fazem a gente pular e sorrir e amar e viver.
“Você está bem?” pergunta uma voz forte, um pouco rouca. Ela olha em seus olhos, o enxerga por dentro; sente um calor vindo do toque daquelas mãos e responde que sim. Ele tira o salto da fenda, tira o outro sapato do pé e a ajuda a se reerguer. Daqueles braços ela sentiu uma força que parecia conhecer a tempos. Ele pergunta para onde a deveria levar, e ela, num momento de lucidez onde todo seu futuro ficou claro, respondeu: com você.
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De um lado o lixo, a alguns passos tortos e bêbados de distância. Do outro, a rua, inteira, profunda, que leva ao longe. Leva onde somente o silêncio é capaz de acompanhar. Enquanto decide qual lado tomar, o vento rasga seu rosto, dilacera seus sonhos, mas divide consigo uma vontade imensa de viver, e de sair voando.
O gato preto do outro lado da rua caminha devagar. O mistério daqueles olhos amarelos parece entender todo aquele momento, parece dizer “vá, para onde tiver que ir”. O meio-fio, gelado e sujo, segura seu corpo para que não caia mais, para que não afunde mais além daquele chão. O cabelo desarrumado se encontra com a poeira grossa daqueles que já pisaram por ali. Poeira de quem foi e já voltou, de quem foi e foi pra sempre.
Uma garrafa de vinho, vazia, pendendo do meio-fio. Um toque e ela cai. Vai cair e rolar, do jeito que for, até encontrar um buraco, uma pedra, algum bom motivo que a faça parar. Ela não quer parar. Quer seguir. Quer levantar, e sair, pra onde tiver que ir. Ela tenta ficar de pé. Tudo gira, e fica girando, confundindo as cores, misturando imagens. Borrões, apenas. Que giram, que a fazem lembrar de dias quentes, dos dias que passava horas num balanço, indo e vindo cada vez mais alto só pra que pudesse sentir o vento, o mesmo vento que a encontrou nesta noite. Mas não é o mesmo. Ela sabe disso.
De pé, entortando os passos, afunda o salto numa fenda qualquer. Cai. De joelhos. Uma cena patética não fosse o sangue, vermelho e sincero, que escorre pela perna, riscando a pele com sentimentos reais. Ardor. Que arde como um amor mal resolvido, como um mal-entendido, que a faz agoniar até que ele perca a força e resolva parar de arder. Mas nesse momento ainda arde. E a cada movimento arde cada vez mais. As lágrimas já não conseguem mais se conter. Simplesmente caem, derrotadas, cansadas daquela bravura que nunca foi o seu forte.
Apesar disso, sente-se bem. O mundo explodindo em sons, em caos, e ela ali, sozinha, somente frio e silêncio. E o ardor. Sabendo que não irá conseguir levantar novamente, ela se deixa ficar, deitada e quieta, numa paz que só se sente depois de tanta briga, de tantos conflitos. A paz de quem merece paz e descanso. Paz transmudada em felicidade, daquelas que completam, que preenchem, que fazem a gente pular e sorrir e amar e viver.
“Você está bem?” pergunta uma voz forte, um pouco rouca. Ela olha em seus olhos, o enxerga por dentro; sente um calor vindo do toque daquelas mãos e responde que sim. Ele tira o salto da fenda, tira o outro sapato do pé e a ajuda a se reerguer. Daqueles braços ela sentiu uma força que parecia conhecer a tempos. Ele pergunta para onde a deveria levar, e ela, num momento de lucidez onde todo seu futuro ficou claro, respondeu: com você.
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