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Exercícios de escrita - Infelicidade comum

A mesa era firme, isso não era possível negar. A madeira não era um compensado, mas também não era rústica. Não que eu entenda de madeira, mas com certeza não era um pedaço de madeira retirado diretamente de sua árvore, houve um processo ali. A madeira foi colhida, cortada, cortada e cortada mais uma vez, depois colada, possivelmente, em cima de outro pedaço de madeira. Talvez seja um compensado. Não que eu entenda de compensado.

O fato é que a madeira era boa e a mesa, firme. Era firme. E por que isso é tão importante? Porque toda a sua vida havia sido posta sobre ela. Era a mesa, um monitor e um notebook. Tudo isso era só isso, e vice-versa. 

Naquela mesa, por horas, ela ficaria debruçada. Sentada, é claro, em uma cadeira feita da mesma madeira firme não rústica da mesa. Era um conjunto: a mesa, dobrável, a cadeira, dobrável. Pertenceram a um local muito especial para ela. 

E por isso, por ali, ficaria horas e horas debruçada, nem se importando com a falta de encosto inteiriço em que pudesse apoiar suas costas, pelo contrário, era uma mesa e cadeira muito confortáveis em comparação com a mesa e cadeira que possuía antes. E isso também era importante e dizia muito sobre o momento de sua vida.

Essa vida, com esse peso, havia sido posta em cima da mesa. Uma vida que ela vinha tentando conjurar desde que nascera, possivelmente. E nasceu com fome, foi amamentada antes que pudesse tomar seu primeiro banho. 

Qual era o problema com a vida? Nada. O problema não era a vida, sua vida. O problema era não saber como vivê-la, não saber como pegá-la em suas mãos, como se afeiçoar por ela. Faltava afeto. Afeto pela vida? Afeto por estar viva. Afeto por fazer algo de sua vida, por realizá-la. 

Nem sempre foi assim. É o que dizem, é o que todos dizem quando contam sobre momentos em que parecia não haver uma vida. Pois houve uma época em que viver era mais leve, e não falo da alegada falta de responsabilidades da infância (embora eu não acredite que exista uma falta de responsabilidade: nada me parece mais responsável do que viver uma infância feliz). 

Falo da leveza de quando se aprecia a vida, ou o viver. Quando rir é mais natural, frequente, normal: espontâneo. Quando amizades são experimentadas com amor alegre, com vínculos tão cheios de vida e juras eternas, juras que nunca mais conseguiu fazer com a sinceridade de um coração que sente.

É um brilho que apagou: apagou memórias que continham sentimentos, esqueceu-se do sentir. 

O peso era um peso. Era um peso amadeirado, firme. Um peso que prendia seus pés, um peso que encurvava seus ombros, como se seu próprio corpo já não se encolhesse sozinho, sem ninguém pedir. No entanto, o peso era confortável, mesmo sem um apoio para os pés que a sustentasse - quem dirá um apoio para as costas. Isso já era pedir demais.

Ali, naquela mesa firme, quadrada, de madeira escura com um verniz resiliente que insistia em se fazer notar, ali ela sentava, debruçada, por horas, tentando juntar o que ainda lhe restava da vida. Não estava doente, não era esse o caso. O que lhe restava da vida era a esperança de que algum dia, lhe restaria vida para viver. Um amor de verdade pelas pessoas à sua volta, com vínculos alegres que juram sentir o coração. 

Seria tudo isso apenas a vida? Seria apenas a infelicidade comum compartilhada por todos que têm sangue em suas veias (animais não incluídos)? É que parece que nem todos são assim. Mas quem sabe. Talvez alguns tenham suas mesas, firmes, com um monitor apenas. Ou talvez tenham a cadeira dobrável de madeira, sem encosto inteiriço, mas com mesas de madeira de lei, com verniz recém aplicado, porém sem notebook e com um pé torto. Quem sabe.

O importante é que há mesas, há cadeiras, há o tempo e a crença de que tudo passa, de que se choveu ontem, amanhã o céu estará limpo. De que nesse meio tempo, árvores novas nascerão, diferentes dos arbustos juvenis, mas anelados com a experiência de quem viveu 7 vidas em uma. Árvores que, se deus quiser, viverão livres e mesas e cadeiras não serão necessárias.


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