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Mostrando postagens de 2008

O café

- Já é a terceira vez que esquento esse café! – irritou-se, recolhendo os talheres e guardando o leite do café-da-manhã – Se esfriar, não vou esquentar de novo! - Tá, não pedi pra você esquentar. – ele respondeu, sabendo que seria mal-compreendido. Ou talvez não. Talvez quisesse ter dito o que disse. Da maneira como foi dito. Talvez quisesse tantas coisas, mas não sabia como dizer. Achou melhor ignorar. “'Não pedi pra esquentar!' É não pediu mesmo. Mas eu esquentei. Quis esquentar e esquentei. Não pediu? Não precisava pedir. Sabia que eu ia esquentar. E esquentaria mil vezes. Droga!” É verdade, ela teria esquentado o café por quantas vezes fosse preciso, só pra que soubesse que dessa maneira estaria fazendo tudo certo. Só pra que soubesse que dessa maneira tudo daria certo. No jornal online, as mesmas notícias. No horóscopo também, nenhuma novidade. Ele não sabia exatamente porque ainda perdia seu tempo com horóscopo. “Você terá grandes oportunidades, mas deve ficar atento para...

Nem parece

De imensa alegria são os risos, os olhares, os caminhos até o outro. De imensa beleza é o ser, o menino, o choro por atenção. De imenso caráter são os sonhos, o futuro, as incertezas. De imenso amor é que somos feitos, e por imenso amor é que morremos. publicado originalmente no endereço: www.fotolog.com/lucyfernanda, em 22/09/08.

As marquinhas

As marquinhas de chuva em cima do livro mudaram totalmente a perspectiva daquele momento. Já não era mais o passado que preocupava. O futuro, agora, parecia muito mais distante e doloroso. E os amigos de sempre lhe diziam sempre as mesmas palavras, só que em tons diferentes. De tanto não querer enxergar, acabou cega. E por não saber ao certo como havia conseguido voltar a ver, achou que talvez fosse melhor considerar a noite anterior como a grande responsável por todas as coisas que viriam agora. Agora que tinha voltado a ver. Foi aquela chuva que molhou o livro, foi aquele silêncio, tal qual o silêncio que havia por dentro, foram aquelas luzes, aquelas ruas, foi aquele vento que conseguiu mudar toda uma maneira de ser. As luzes, borradas numa visão entre cílios molhados, apagaram as únicas imagens que ainda existiam daquele passado. O vento, gelado, pediu que seu coração novamente se aquecesse. As ruas, vazias, deixaram entrever todo o novo caminho que deveria ser traçado. A chuva, bo...

2 minutos e 36 segundos

Para ler com um cronômetro. Há 1 minuto atrás, tudo era de um jeito. Tanto faz se de um jeito bom ou ruim, era apenas de um jeito. 2 minutos e 36 segundos depois tudo havia mudado. Há 1 minuto atrás, uma pessoa tinha tudo. 2 minutos depois, ela já não tinha mais uma casa, nem um cachorro. Em menos de 2 minutos, um morro desmorona. Em menos de 2 minutos, alguém fica sem pai, alguém fica sem um irmão, e uma mãe não tem mais um filho pra ver crescer. Há 1 minuto atrás, você tinha certeza de tudo. Em menos de 30 segundos você se apaixona. 1 minuto e meio depois você não tem mais certeza nem sobre o seu nome. 2 minutos atrás você não sabia o que fazer da vida, não entendia como tudo acabou tomando aquele rumo. Aí você ouve 3 segundos de uma conversa alheia e 33 segundos depois tudo fica claro. Há 50 segundos atrás, as coisas estavam absolutamente decididas. 10 segundos de palavras vomitadas transformam todos aqueles outros milhares de segundos depois em perfeitas incertezas. 46 segundos atr...

TPM: here comes another one

Lenços de papel: R$1,49 Leite condensado (para o brigadeiro): R$3,39 Comédia romântica da locadora: R$5,00 O prazer de chorar ininterruptamente durante uma semana sem qualquer motivo aparente: não tem preço. Ou tem. As olheiras pós-noite do tipo descabelante-onde-percebo-que-ninguém-me-ama se disfarça com óculos escuros e corretivos. O mau-humor desgraçado não. O montinho na cabeceira da cama de lenços de papel usados - e enganam-se aqueles que acham que secamos lágrimas – jogamos no lixo. Aquele nó na garganta prestes a irromper em soluços coléricos cada vez que alguém nos dirige a palavra, não. Se é apenas sendo uma mulher que se pode compreender realmente o profundo significado do yin/yang não é para menos. Somente nós podemos entender a beleza e a desgraça do bem e do mal se complementando; a beleza e a desgraça que é estar de TPM. Beleza sim, afinal, Deus não poderia ser tão cruel e injusto (nem tão machista e sádico) nos castigando com a maldição do sangue sem que pudéssemos tira...

O dia em que me apaixonei pelo mistério

Ele era loiro, tinha olhos verdes e 19 anos. Quando o conheci, achei que apenas saberia seu nome, a cidade de onde vinha e quantas gurias já tinham conhecido seu quarto. Não mais que três palavras foram suficientes para que ele me encantasse. Não mais que três dias foram suficientes para que eu percebesse que qualquer tipo de relação com ele seria difícil. Ou, pelo menos, não-tão-fácil. Jeito de quem fala à vontade e está sempre bem. Te olha mesmo e te deixa sem jeito, te toca e te deixa com medo, mas te deixa sempre pedindo por mais. Achei que nunca saberia dos seus sonhos, das suas vontades, das coisas que passam pela sua cabeça. Achei que nunca saberia e de fato, não me enganei. Se hoje sei quando está triste, se hoje entendo quando quer mais, ou quando quer menos é porque sinto. É porque – pelo bem, alívio e salvação geral das mulheres deste mundo – existe uma coisa chamada intuição. Intuição daquelas que só se adquire depois de um longo período de tentativa e erro. Depois de um lo...

Queria chegar e ser

Das vozes que escutava, nenhuma podia entender. Das vozes que escutava inevitavelmente se perdia. E ia, longe, distante, em passos curtos e ansiosos. Queria chegar, chegar e abraçar. Chegar e reconhecer: este é o meu lugar! Os passos. Cada vez mais lentos. Cada vez mais apenas passos. Que não chegavam. Das vozes que escutava, ouvia apenas uma. Das vozes que se perdia, sentia apenas por não ser aquela outra. Queria chegar, chegar e beijar. Dizer: eu sabia que você existia! Os passos. Cada vez mais sozinhos. Cada vez mais perdidos. Sabia que devia perguntar, sabia que devia parar e pensar. Mas os passos... Sabia que, se caso parasse, se caso hesitasse apenas por um momento, eles cessariam. Cansados, não mais procurariam. Das vozes que ainda escutava, acreditava em apenas uma. Das vozes que ainda escutava, sorria apenas por não mais que duas. Mas já não ia mais tão longe. Os passos, cansados, se retraíam, se acovardavam. Por mais que quisesse chegar, chegar e acarinhar, o cansaço prevalec...

Shuffle

Só faz sentido quando se sente. Só se faz ouvir quando de ouvidos. Só se faz enxergar quando de coração. Dizer palavras pra fora, Escrever palavras por dentro. Sentir-se sozinho no mundo concreto, Cheio de risos naquele outro. Tão rosa, tão verde, tão roxo, tão cor! Só faz sentido quando se vê. Só faz sentido quando se quer. Só faz sentido quando se é cor. Dizer palavras no vento, Escrever palavras de tudo. Querer dizer (Futari...) Vontade de ser (Kimochi!) Não poder! Só faz sentido quando se é. Só faz sentido quando sou eu. Dizer palavras que voam. Escrever palavras que não são. Só faz sentido quando se é. Só faz sentido quando sou eu. Honto ni Honto ni arigatou... (Ano hoshi...) . .

Por que não comigo?

Por que com o sol, e com a lua, mas não comigo? Por que com quem vê e não enxerga, com quem ouve e não escuta, com quem não conversa e não sorri? Por que com quem não entende de abraços, com quem não sabe o que é fingir, com quem não conhece ou não se importa? E por que isso e não comigo? Por que com quem não agradece, com quem não diz bom dia, com quem que não quer nada disso? Por que com todos e não comigo? Por que com quem não faz diferença, com quem não dá valor, por que com eles e não com os que não têm culpa? Por que com aqueles que dizem que não vale à pena, que isso não existe, que com eles não? Por que com quem não quer e não comigo? Por que?

À idéia

Nas mãos, uma caneta. Nos pensamentos, nada. É sempre assim. A idéia, que de um mundo distante e abstrato veio migrar para um mundo mais vago e misterioso, a idéia, ela continua lá, pulsando, correndo, batendo e pulsando. Ela não desiste. Apenas hesita. Enquanto idéia, nada lhe pode acontecer. Nada lhe pode ferir. Enquanto ela é apenas idéia, tudo é possível, tudo soa perfeito. Mas apenas como uma idéia. Quando a mão tenta intervir, quando o pensamento ordena que a idéia se concretize, tudo então desmorona. Tudo escorre e se perde por entre os espaços sinápticos daquele mundo vago e misterioso. Afinal, não se diz para uma idéia "aconteça!" Não se pede para uma idéia que ela desça de seu lugar e que vá, rápida e clara, para as mãos de quem por ela está sempre à espera. Não. Não se trata uma idéia dessa maneira. É preciso que lhe provem, que provem à idéia, de que o tempo aqui fora está bom. É preciso dar segurança à idéia, dizer-lhe que aqui fora será mais bela e perfeita do q...

“I cannot tame the hunger in me…”

Tão difícil. Sempre é. Controlar, segurar, supervisionar. Cada vontade, cada desejo. Não, ela não consegue. E é insuportável toda aquela ânsia por qualquer coisa que a segure quando ela diz que não se importa. Ou quando diz que se importa. Tanto faz. Sempre fez. Quando Helena quer, ela consegue. É o que dizem. Helena. “Por que diabos esse nome?” Helena de Tróia deve detestar o fato de ter seu nome posto em mulheres que não o mereçam. Ou que o desonrem. É o que minha Helena pensa. Engana-se. Ela o merece, muito mais que as outras. Só que ainda não sabe. Enfim. Quando as vontades de Helena são descobertas, é como se a descobrissem. Por isso ela as esconde. Mas invariavelmente, tudo o que ela tenta esconder acaba por se fazer descoberto no momento mais inoportuno. Ou talvez até seja oportuno, mas não para ela. Só para os outros. Os outros. O que Helena quer com os outros? Nada. Nunca quis. O que ela quer nada tem a ver com os outros. Ou são os outros que nada tem a ver com o que ela quer....

Tomei um dorflex e fui

Tomei um dorflex e fui. Assim mesmo. Nessa ordem. O plano inicial era não ir. Aí vem um “sua cu doce” aqui, outro “não te chamo mais” ali. Como eu poderia dizer não? Claro, fosse o programa chato, não iria. Fossem as pessoas erradas, muito menos. Mas não vai ser assim, então eu vou. Me dá 5 minutos. Mas e a cara de sono? Passa um lápis. E o cabelo amassado? Prende. E a dor no corpo? Essa fica. Porque dói mesmo. Tudo. Cada pedaço. Mas o que se pode fazer? Avisados, todos somos. Desde o início. E no fundo, a gente sabe, mas prefere acreditar. Dói, é verdade, mas pouco, ou nem sempre. E enquanto não dói, a gente ri. E sorri. E quer andar, comprar um beijo, um “eu te adoro”, um “muito obrigada”. Mas quando dói, é assim, dolorido. Quando dói, desanima, cansa, chateia, faz mal. E por que dói? Por que eu andei. Andei, procurei, mas não achei. Andei, de novo, procurei, não achei. Cansei. Andei mais, procurei mais, achei, e voltei. Feliz. Com uma água na mão. E aí, começou a doer. Não quis acre...

dois jägers e duas tequilas

Quando saía, queria ser vista. Claro. Embora sua altura não contribuísse, sempre sentia que aquela sombra ou aquela roupa ia fazer efeito. Bom, nem sempre fazia. O motivo? Sempre o mesmo. Todas as suas amigas o tinham na ponta da língua. Inclusive ela mesma. Mas não é algo que se mude da noite para o dia. Ou melhor, do dia para “A noite”. Não. Aqueles pensamentos indesejáveis (sim, indesejáveis, ela não queria tê-los) pareciam agir como seres controladores ou como qualquer coisa que estivesse ali, sempre por perto, somente para julgá-la e condená-la, como se dissessem “não, você não o tem direito de se sentir bem”. Estranho? Demais. Ela sabia. Mas ela sabia também que esses pensamentos não estiveram sempre ali, no controle. Não. Um dia, eles não existiam. Um dia, há muito tempo, ela nem sonhava que poderia se sentir tão fraca, tão desinteressante. Há muito tempo, ela sorria com mais facilidade. Na verdade, tinha crises de riso com tanta freqüência que, aos olhos dos outros, ou ela era ...

Escritores não foram feitos para serem amados

Escritores não foram feitos para serem amados. Escritores foram feitos para amar. Para amar e sofrer. Porque sem saber o que é dor, sem saber o que é o amor (em 1ª pessoa e sempre no singular) não é possível escrever. Não é possível ter algo para dizer. Dizer e fazer o outro sentir. Mas, ser amado? Não! Um escritor não precisa disso. Posso fingir que sou amado. Mas não posso fingir que sofro. Posso fechar os olhos e imaginar outros olhos me observando enquanto durmo. Posso inventar uma história em que eu sou o grande e único e verdadeiro amor de outra pessoa. Mas não posso fingir que derramo uma lágrima. É preciso sofrer. Mas não é você quem escolhe. Você não decide ser um escritor e então, decide sofrer. Primeiro você sofre. Depois, torna-se um escritor. Mas não basta sofrer por um ou dois dias. Ou por um ou dois amores. É preciso sofrer sempre, constantemente. É preciso estar amando sempre. Amando e desamando por toda a vida. Mas ser amado? Isso nunca! Claro, você até deseja ser amad...

No ônibus

Entrei no ônibus. Eram 6:46 de uma manhã de inverno. Com as pálpebras ainda lutando contra a inércia do sono, dei bom dia ao cobrador. O sorriso entusiasmado que ele me deu deixou entrever que conhecia empiricamente minha batalha matutina. Como de costume, escolhi um assento do lado esquerdo, na janela, de onde eu poderia executar minha tarefa de juiz sem julgar. Esse era o meu momento. Reunião de pais, conselho de classe, diretor totalitário, tudo isso podia esperar. Assim que eu chegasse ao meu destino logo esses assuntos teriam de volta seus lugares em minha cabeça. Mas não agora. Não. Do meu assento eu podia observar dois mundos: Um que corria lá fora, louco, apressado, numa harmonia abstrata regida pelo caos. O outro era contido. Forçadamente contido. Alguns moradores do ônibus não se preocupavam. Riam, discutiam sobre colesterol, davam conselhos às mães cujos bebês choravam. Mas a maioria recolhia-se a murmúrios ternos, a pedidos quase inaudíveis de com licença. E eu fazia parte ...

enquanto isso, a dias...

... e enquanto isso, ele chorava. e não foi preciso dizer uma só palavra a dias seu coração não parava de gritar pelo quê, nem ele, nem ela podiam imaginar apenas gritava. e ambos sonhavam ambos se amavam ambos gritavam a dias tudo era diferente as cores, as luzes, os quartos cada canto, cada rua tudo era diferente e nem ele, nem ela sabiam dizer nem ele, nem ela sabiam o que fazer e ambos choraram ambos se amaram ambos se olharam a dias tudo era perfeito a dias tudo ficou confuso e enquanto isso, ele dormia e enquanto isso, ela chorava. .

Irashaimase!

decidi que ia contar tudo. decidi que queria me expor. decidi chamar toda a atenção pra mim. decidi parecer ridícula pra quem quer que fosse. decidi tentar fazer piada. decidi que seria melhor levar tudo a sério. decidi que não ia mais me importar. decidi falar o que eu quiser. decidi que nada é tão importante. decidi criar coragem. decidi fazer o que eu tiver vontade. decidi não fazer diferença alguma: decidi criar um blog... ... e decidi começar mal. .