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O café

- Já é a terceira vez que esquento esse café! – irritou-se, recolhendo os talheres e guardando o leite do café-da-manhã – Se esfriar, não vou esquentar de novo!
- Tá, não pedi pra você esquentar. – ele respondeu, sabendo que seria mal-compreendido.
Ou talvez não. Talvez quisesse ter dito o que disse. Da maneira como foi dito. Talvez quisesse tantas coisas, mas não sabia como dizer. Achou melhor ignorar.

“'Não pedi pra esquentar!' É não pediu mesmo. Mas eu esquentei. Quis esquentar e esquentei. Não pediu? Não precisava pedir. Sabia que eu ia esquentar. E esquentaria mil vezes. Droga!”
É verdade, ela teria esquentado o café por quantas vezes fosse preciso, só pra que soubesse que dessa maneira estaria fazendo tudo certo. Só pra que soubesse que dessa maneira tudo daria certo.

No jornal online, as mesmas notícias. No horóscopo também, nenhuma novidade. Ele não sabia exatamente porque ainda perdia seu tempo com horóscopo. “Você terá grandes oportunidades, mas deve ficar atento para não perdê-las, afinal, hoje, às 7h43 a lua entrará em Escorpião, e você sabe, o tempo pode fechar.” Não, não sabia. “O que diabos isso quer dizer?”

- O que significa a lua entrar em Escorpião? – ele gritou da sala onde ficava o computador e da qual ainda não havia saído para tomar seu café.
- O quê? – ela respondeu, enquanto tirava os nós do cabelo com as mãos, pra não quebrar os fios. – Não entendi.
- Aqui, no horóscopo, diz que a lua vai entrar em Escorpião, o que isso quer dizer?
- Não faço idéia.

A única coisa que ela sabia era que tinha um péssimo hábito de remoer cada palavra, cada situaçãozinha que pudesse ter rastros de alguma mensagem ou idéia escondidos. Não ter pedido pra esquentar o café não era o problema. O que tiraria seu sono e o que faria com que perdesse horas do seu dia, tão cheio de importâncias, com pensamentos torturantes era o fato de ele ter dito que não tinha pedido pra esquentar o café. “Será possível tamanha ingratidão?” Não poderia. Tinha que ser mais do que isso.

- Estamos atrasados – ele disse, enfim levantando da cadeira, mas passando reto pela cozinha em direção ao banheiro. – Acho que vou ganhar um aumento. Mas se chegar atrasado talvez não.
- E a culpa vai ser minha, é isso? – ela protestou, mais por graça do que por culpa.
- Nunca – ele respondeu, lhe dando um beijo. – Você sabe que não.

Mas era. Sempre foi. É por isso que ele sempre estava atrasado, por isso sempre estava ocupado. Não sendo sua a culpa, não tendo pedido para que esquentasse o café então estaria tudo bem. Não tinha que se preocupar com atrasos ou falta de tempo. “A culpa não é minha, afinal”.

Finalmente saíram. O café ficou sobre a mesa. Frio.

Naquele dia, somente ele voltou pra casa. E antes de dar pela falta dela, acabou pegando no sono, ali mesmo, no sofá. Mais tarde, tomando cuidado para não fazer barulho, ela passou em casa para pegar suas coisas. “Eu sabia, não podia ser ingratidão. Tinha que ser mais do que isso.”

E então, com o coração cheio de novas emoções, ela esquentou o café pela última vez.
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Comentários

Rafael Hertel disse…
E se ele tivesse pedido, ainda lembraria dele?
V L O disse…
é bem provável. Mas isso não faz diferença, o "e se..." não existe.

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