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Mostrando postagens de dezembro, 2008

O café

- Já é a terceira vez que esquento esse café! – irritou-se, recolhendo os talheres e guardando o leite do café-da-manhã – Se esfriar, não vou esquentar de novo! - Tá, não pedi pra você esquentar. – ele respondeu, sabendo que seria mal-compreendido. Ou talvez não. Talvez quisesse ter dito o que disse. Da maneira como foi dito. Talvez quisesse tantas coisas, mas não sabia como dizer. Achou melhor ignorar. “'Não pedi pra esquentar!' É não pediu mesmo. Mas eu esquentei. Quis esquentar e esquentei. Não pediu? Não precisava pedir. Sabia que eu ia esquentar. E esquentaria mil vezes. Droga!” É verdade, ela teria esquentado o café por quantas vezes fosse preciso, só pra que soubesse que dessa maneira estaria fazendo tudo certo. Só pra que soubesse que dessa maneira tudo daria certo. No jornal online, as mesmas notícias. No horóscopo também, nenhuma novidade. Ele não sabia exatamente porque ainda perdia seu tempo com horóscopo. “Você terá grandes oportunidades, mas deve ficar atento para...

Nem parece

De imensa alegria são os risos, os olhares, os caminhos até o outro. De imensa beleza é o ser, o menino, o choro por atenção. De imenso caráter são os sonhos, o futuro, as incertezas. De imenso amor é que somos feitos, e por imenso amor é que morremos. publicado originalmente no endereço: www.fotolog.com/lucyfernanda, em 22/09/08.

As marquinhas

As marquinhas de chuva em cima do livro mudaram totalmente a perspectiva daquele momento. Já não era mais o passado que preocupava. O futuro, agora, parecia muito mais distante e doloroso. E os amigos de sempre lhe diziam sempre as mesmas palavras, só que em tons diferentes. De tanto não querer enxergar, acabou cega. E por não saber ao certo como havia conseguido voltar a ver, achou que talvez fosse melhor considerar a noite anterior como a grande responsável por todas as coisas que viriam agora. Agora que tinha voltado a ver. Foi aquela chuva que molhou o livro, foi aquele silêncio, tal qual o silêncio que havia por dentro, foram aquelas luzes, aquelas ruas, foi aquele vento que conseguiu mudar toda uma maneira de ser. As luzes, borradas numa visão entre cílios molhados, apagaram as únicas imagens que ainda existiam daquele passado. O vento, gelado, pediu que seu coração novamente se aquecesse. As ruas, vazias, deixaram entrever todo o novo caminho que deveria ser traçado. A chuva, bo...

2 minutos e 36 segundos

Para ler com um cronômetro. Há 1 minuto atrás, tudo era de um jeito. Tanto faz se de um jeito bom ou ruim, era apenas de um jeito. 2 minutos e 36 segundos depois tudo havia mudado. Há 1 minuto atrás, uma pessoa tinha tudo. 2 minutos depois, ela já não tinha mais uma casa, nem um cachorro. Em menos de 2 minutos, um morro desmorona. Em menos de 2 minutos, alguém fica sem pai, alguém fica sem um irmão, e uma mãe não tem mais um filho pra ver crescer. Há 1 minuto atrás, você tinha certeza de tudo. Em menos de 30 segundos você se apaixona. 1 minuto e meio depois você não tem mais certeza nem sobre o seu nome. 2 minutos atrás você não sabia o que fazer da vida, não entendia como tudo acabou tomando aquele rumo. Aí você ouve 3 segundos de uma conversa alheia e 33 segundos depois tudo fica claro. Há 50 segundos atrás, as coisas estavam absolutamente decididas. 10 segundos de palavras vomitadas transformam todos aqueles outros milhares de segundos depois em perfeitas incertezas. 46 segundos atr...