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Mostrando postagens de 2018

Alma

Uma alma atormentada – de sentimentos. De desejos, de sonhos, de quando era criança e queria tudo, e queria nada. Tão feio e banal e terrivelmente horrível aos ouvidos é dizer atormentada, mas era assim que era. Um pequeno lugar-comum: a alma, que sentia tudo; o coração para sempre quebrado e o sonho, o grande sonho a que tudo, um dia, colocaria um fim (sonho technicolor, psicodélico, das luzes vermelhas no velho Troubadour). Era realmente uma alma e acreditava nisso – era sua única crença, afinal (nunca fora de muita fé). E assim estava bem, e assim vivia uma noite após a outra, de meias-luzes, a luz de velas e todo coração dedicado a uma e várias músicas. Era assim que era. Uma alma – atormentada de sentimentos que nunca entendera, apenas, talvez, ouvira falar deles um dia. Em uma outra história – mas não a sua. Jamais a sua. História que não conhecia, como se o maior e mais escuro pedaço dela lhe tivesse sido surrupiado, guardado abaixo de sete vidas, dentro de um pote, ente...

Um pequeno conto

Uma pequena história começa com um grande sentido. Julian era calmo, uma passividade que espantava a maioria das pessoas que atravessavam seu caminho - por bem, por querer, ou por não querer, pelo acaso. Julian não tem idade, assim como todos os seres que habitam o planeta Hursenal, um planetinha pequeno, escondido entre uma nebulosa no quadrante seis do Universo Intergaláctico, e logo acima - ou abaixo - do exoplaneta Xandoena, um achado paradisíaco no meio do nada do infinito interestelar. Julian era atemporal. O planeta Hursenal era atemporal. Relógios, o passar dos dias, outrora, amanhã, futuro eram palavras - conceitos - que não faziam sentido algum para os hursenais, como Julian. Mas Julian, sempre passivo, sempre calmo, irrompeu em ira e fúria um certo dia. Naquele dia, Julian sentiu-se preso, acorrentado aos pensamentos que sua mente criava, evento a evento, num crescente que começara a assustá-lo e num volume que o cegava. Os hursenais eram mestres na arte de ser, de exi...

Dor, escarro

Dor. Escarro. Cara amarrada. Quem reclama mal sabe o que se passa naquela cabeça. Que pensa, como pensa. Um instante de silêncio é o próprio diamante - de sangue -, enclausurado em meio à névoa, em meio à chama, daquela cabeça, que pensa. Por todos os lados, por todas as dores. E como tem dores. Uma dor, um escarro. Que sai amarelo na pia do banheiro, na porta do quarto, no azulejo da sala. Chega a ser verde, a dor, não o escarro. Chega a ser cinza, a dor, não o descaso. Chega a doer, tanto, a dor, que de culpa morreu mais jovem - um pouquinho a cada dia, um segundo a cada vida. Eram muitas vidas. Todas fruto de uma só dor: a da vergonha. E como escarra, essa marca que leva consigo, desde quando contava as cores em seu modo primário - singelo -, simples e leve. Essa marca que a segue e a remarca e a assalta todas as vezes; essa marca, perseguindo um sem fim de facetas de sua própria identidade. Essa marca, marca. Marcou. Para sempre. A dor, o escarro, a vergonha, a culpa. O errar...

A chaminha

Até o raiar do sol, a vela ali estará. A chaminha, embora pequena e pontiaguda, o miolinho azul quase não se vendo, se enxergando - se reconhecendo? - segue ali, enquanto o dia vai clareando. Enquanto a luz vai entrando, ziguezagueando pela retidão dos raios e se colocando para dentro por toda a abertura daquela casa que, ainda que fria, era leve, e respirava. A chama estaria e estará lá. A brilhar e iluminar, enquanto o dia vai clareando e outra luz, ainda mais forte, lhe cegará. Mas não da cegueira que paralisa, que atormenta o ser humano correndo à louca pelas ruas, sem sentir o sentido da via, a direção da estrada, não. Era a cegueira de algo sutil, ao mesmo tempo que profundo, a cegueira temporária, necessária, para que todo o corpo interno - dos órgãos ao esqueleto - se recuperasse da noite anterior. E quando recupera-se, ah sim, tudo muda. Tudo se abre, e tudo queima, mas não daquele fogo que machuca, as bolhas saltando da pele em carne em viva, enquanto estouram em um grito...

Genevive sabia

O caso é que não era bem assim. Quando Genevive veio a este mundo, definitivamente não desejava ser mais uma. Ou sequer sonhava em ser todas. Todas as outras, menos ela. Não. O caso não era bem assim. Genevive sempre teve certeza daquilo que buscava, sim ela sabia, pois sempre soube, do nascer ao morrer, do acordar ao adormecer, a todo o momento, em todos os seus poros, pele, até o subir e descer do diafragma. Até os ossos, se assim você quiser, caro leitor. Tamanha era a certeza de Genevive. Não, o caso não era bem assim. O caso era que Genevive não se conhecia mais. Sabia sim quem era, mas não o reconhecia. A quem? Ninguém sabe. Essa estranha que se lhe apresentava, em frente ao espelho, todos os dias – manhã, tardes e mil noites, quando menos queria saber. Essa estranha, pois bem, se lhe apresentava, quase como um tapa na cara que ousava lhe dizer “ande, Genevive, reconheça-me, abra-se para mim, pois eu sou você, e você é muito mais do que eu poderia ser”. Essa intrusa,...