Uma pequena história começa com um grande sentido. Julian era calmo, uma passividade que espantava a maioria das pessoas que atravessavam seu caminho - por bem, por querer, ou por não querer, pelo acaso. Julian não tem idade, assim como todos os seres que habitam o planeta Hursenal, um planetinha pequeno, escondido entre uma nebulosa no quadrante seis do Universo Intergaláctico, e logo acima - ou abaixo - do exoplaneta Xandoena, um achado paradisíaco no meio do nada do infinito interestelar.
Julian era atemporal. O planeta Hursenal era atemporal. Relógios, o passar dos dias, outrora, amanhã, futuro eram palavras - conceitos - que não faziam sentido algum para os hursenais, como Julian.
Mas Julian, sempre passivo, sempre calmo, irrompeu em ira e fúria um certo dia. Naquele dia, Julian sentiu-se preso, acorrentado aos pensamentos que sua mente criava, evento a evento, num crescente que começara a assustá-lo e num volume que o cegava.
Os hursenais eram mestres na arte de ser, de existir essencialmente. Mas Julian sentia que algo lhe faltava, como se um buraco existisse onde supostamente deveria haver aquilo que o move, que o conecta com Hursenal e todo o universo, um buraco onde Julian desejava muito que houvesse um sentido, o porquê das coisas. Mas não havia, aquele espaço era como um buraco, uma fenda que, embora imaterial, Julian quase podia senti-la com suas mãos - suas mãos compridas, mas não delicadas, até um pouco tortas.
"Mas que diabos?", perguntava-se Julian. "Quantos pensamentos? Será que não consigo um minuto de silêncio?". Mas mais do que isso, Julian não sabia por que os pensamentos começaram, e pior ainda, não sabia como fazê-los parar. Mas por que haviam de parar?, questionava-lhe a própria mente, ora essa, vejam só - a audácia do pensamento. Mas perguntava-lhe e exigia uma resposta. Mas quanto mais Julian tentava respondê-la, quanto mais tentava explicar-se a ela, mais os pensamentos aumentavam, como se sugassem uma energia feito sanguessugas, feito parasitas.
Mas Julian não odiava a mente. Não. Eram amigos. De longa data. Mas como podiam ser amigos de longa data, se tempo não era algo verdadeiro em Hursenal, ou mais ainda, no próprio Julian? Pois aí que estava o segredo que Julian apenas entrevia em meio à névoa que era sua própria essência: a mente havia criado o espaço temporal, dando à Julian a noção de tempo, algo que não lhe era natural, algo que lhe fazia um refém, de sua própria mente. A mente, feito sanguessuga, feito parasita, necessitava e se alimentava da energia vital de Julian, que era sugada por meio da ira, da fúria, da angústia, do tormento que aos poucos crescia dentro de Julian - tormento este que quase tornava-se ele mesmo em um ser próprio, um segundo ser.
Mas Julian não estava sozinho. Ao lado dele seres imateriais alados - de assas cintilantes, daquelas que emprestam as cores do seu entorno para reproduzi-las por alguns instantes com ainda mais brilho e destaque do que a própria vida permitiria -, esses seres acompanhavam os hursenais desde que o mundo é mundo, desde que tudo existe porque sempre existiu. Os seres imateriais alados - cujo nome é impronunciável e irreproduzível em sons humanos -, tinham o poder de abrir os olhos dos hursenais toda vez que algo os desviava de sua essencialidade, de sua única e simples tarefa de apenas ser.
Quando Julian irrompeu em ira e fúria, por pouco não acertou um ser alado imaterial na cabeça, embora isso não fosse possível. Mas o ser alado não se abalou, porque não se abalam, e pousou sobre o ombro teso - pesado e quente - de Julian, quase queimando a bundinha de tanto calor que dali emanava. O ser alado esperou e observou, calmo e satisfeito, enquanto Julian tentava se tranquilizar. Vendo que a tarefa era por demais difícil a Julian, o ser alado respirou o ar para dentro do ouvido de Julian, segredando verdades na língua dos seres imateriais alados, que soavam como sinos e brilhinhos cintilantes quentinhos, entrando pelo ouvido de Julian e indo direto para a corrente sanguínea.
Julian então sentiu. A calma lhe sobreveio, a sensação de plenitude aos poucos ia encontrando seu espaço dentro de si - dentro do corpo de Julian -, reconhecendo cada poro, cada célula, cada átomo de seu corpo - como velhos amigos. Julian viu um espelho em sua frente - oval, limpo e claro, emoldurado em prata tão polida que o primeiro impulso de Julian foi tocá-la para ter certeza de que não era líquido. E assim foi que assim se fez. Aquele reencontro para sempre fez parte da história de Julian. O que aconteceu depois, isso pertence a Julian. Mas o dito que chega até nós, hoje, é que Hursenal não está tão longe assim.
Julian era atemporal. O planeta Hursenal era atemporal. Relógios, o passar dos dias, outrora, amanhã, futuro eram palavras - conceitos - que não faziam sentido algum para os hursenais, como Julian.
Mas Julian, sempre passivo, sempre calmo, irrompeu em ira e fúria um certo dia. Naquele dia, Julian sentiu-se preso, acorrentado aos pensamentos que sua mente criava, evento a evento, num crescente que começara a assustá-lo e num volume que o cegava.
Os hursenais eram mestres na arte de ser, de existir essencialmente. Mas Julian sentia que algo lhe faltava, como se um buraco existisse onde supostamente deveria haver aquilo que o move, que o conecta com Hursenal e todo o universo, um buraco onde Julian desejava muito que houvesse um sentido, o porquê das coisas. Mas não havia, aquele espaço era como um buraco, uma fenda que, embora imaterial, Julian quase podia senti-la com suas mãos - suas mãos compridas, mas não delicadas, até um pouco tortas.
"Mas que diabos?", perguntava-se Julian. "Quantos pensamentos? Será que não consigo um minuto de silêncio?". Mas mais do que isso, Julian não sabia por que os pensamentos começaram, e pior ainda, não sabia como fazê-los parar. Mas por que haviam de parar?, questionava-lhe a própria mente, ora essa, vejam só - a audácia do pensamento. Mas perguntava-lhe e exigia uma resposta. Mas quanto mais Julian tentava respondê-la, quanto mais tentava explicar-se a ela, mais os pensamentos aumentavam, como se sugassem uma energia feito sanguessugas, feito parasitas.
Mas Julian não odiava a mente. Não. Eram amigos. De longa data. Mas como podiam ser amigos de longa data, se tempo não era algo verdadeiro em Hursenal, ou mais ainda, no próprio Julian? Pois aí que estava o segredo que Julian apenas entrevia em meio à névoa que era sua própria essência: a mente havia criado o espaço temporal, dando à Julian a noção de tempo, algo que não lhe era natural, algo que lhe fazia um refém, de sua própria mente. A mente, feito sanguessuga, feito parasita, necessitava e se alimentava da energia vital de Julian, que era sugada por meio da ira, da fúria, da angústia, do tormento que aos poucos crescia dentro de Julian - tormento este que quase tornava-se ele mesmo em um ser próprio, um segundo ser.
Mas Julian não estava sozinho. Ao lado dele seres imateriais alados - de assas cintilantes, daquelas que emprestam as cores do seu entorno para reproduzi-las por alguns instantes com ainda mais brilho e destaque do que a própria vida permitiria -, esses seres acompanhavam os hursenais desde que o mundo é mundo, desde que tudo existe porque sempre existiu. Os seres imateriais alados - cujo nome é impronunciável e irreproduzível em sons humanos -, tinham o poder de abrir os olhos dos hursenais toda vez que algo os desviava de sua essencialidade, de sua única e simples tarefa de apenas ser.
Quando Julian irrompeu em ira e fúria, por pouco não acertou um ser alado imaterial na cabeça, embora isso não fosse possível. Mas o ser alado não se abalou, porque não se abalam, e pousou sobre o ombro teso - pesado e quente - de Julian, quase queimando a bundinha de tanto calor que dali emanava. O ser alado esperou e observou, calmo e satisfeito, enquanto Julian tentava se tranquilizar. Vendo que a tarefa era por demais difícil a Julian, o ser alado respirou o ar para dentro do ouvido de Julian, segredando verdades na língua dos seres imateriais alados, que soavam como sinos e brilhinhos cintilantes quentinhos, entrando pelo ouvido de Julian e indo direto para a corrente sanguínea.
Julian então sentiu. A calma lhe sobreveio, a sensação de plenitude aos poucos ia encontrando seu espaço dentro de si - dentro do corpo de Julian -, reconhecendo cada poro, cada célula, cada átomo de seu corpo - como velhos amigos. Julian viu um espelho em sua frente - oval, limpo e claro, emoldurado em prata tão polida que o primeiro impulso de Julian foi tocá-la para ter certeza de que não era líquido. E assim foi que assim se fez. Aquele reencontro para sempre fez parte da história de Julian. O que aconteceu depois, isso pertence a Julian. Mas o dito que chega até nós, hoje, é que Hursenal não está tão longe assim.
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