Pular para o conteúdo principal

A complexidade das coisas simples

Se tem algo que é duro e denso e pesado como chumbo é a complexidade das coisas simples - e Kundera já cantara essa bola antes.

Ou quase.

A diferença é que enquanto uma coisa é pesada ou leve, há um espaço tridimensional que está mais amplo, menos denso, volátil, ao ponto de escapar pelos dedos quando leve, e o inverso quando pesado. Porém, ainda se trata de tangibilidade, de conseguir pegar com a mão, ou não.

Mas quando a coisa é simples, significa, em primeiro lugar, que ela existe, ela está dada - tem três dimensões mensuráveis possíveis de serem captadas com os cinco sentidos. 

Em segundo, significa que todas as suas partes, premissas, personagens envolvidos na trama - geralmente as do coração -, seguem um roteiro de ações coerente, ação e reação, causa e consequência, isso porque aquilo.

Os fatos, manifestados em atitudes, decisões, comportamentos, no mundo externo, no mundo real, são translucidamente simples, modestos, até pequenos ou proporcionais aos outros atos, fatos, atitudes das outras partes envolvidas no enredo.

É o preto no branco.

Porém, a complexidade não está na vida vivida, no mundo externo, na realidade das coisas materiais. Está na quarta dimensão, a das emoções, da subjetividade, do intangível, inacessível, fora de qualquer controle.

E essa complexidade, embora lhe falte átomos de materialidade, é tão dura e real quanto um diamante negro. E é também igualmente bela, igualmente misteriosa e singularmente dolorosa.

Quem é que sabe o que fazer? Quem é que sabe como navegar entre mundos tão intrinsicamente ligados, mas tão oceanicamente separados, distantes entre si, como Colombo estava do Novo Mundo.

Colombo não conhecia o caminho, nem o destino. Mas sabia navegar um barco, usar o astrolábio, recrutar marinheiros. Sabia e conhecia a simplicidade das tarefas a executar, dos passos a tomar, das decisões que precisava fazer.

Mas jamais poderia ter certeza de quantos graus giraria o leme quando seu coração palpitasse de euforia ou se rasgasse de tristeza. Tudo o que podia fazer era agarrar-se ao controle de madeira, sopesar o balanço do corpo com a força do mar e orar para que estivesse vivo e inteiro quando o intangível passasse, o céu se abrisse e a tripulação ainda estivesse ali.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Irashaimase!

decidi que ia contar tudo. decidi que queria me expor. decidi chamar toda a atenção pra mim. decidi parecer ridícula pra quem quer que fosse. decidi tentar fazer piada. decidi que seria melhor levar tudo a sério. decidi que não ia mais me importar. decidi falar o que eu quiser. decidi que nada é tão importante. decidi criar coragem. decidi fazer o que eu tiver vontade. decidi não fazer diferença alguma: decidi criar um blog... ... e decidi começar mal. .

Ai de mim: das tripas, coração

 Ai de mim, eu dizia. Ai de mim.  Mas o que eu não sabia é que de mim não tinha nada.  Ou melhor, tinha tudo, mas não porque eu queria. Tinha tudo de errado em mim por causas que estavam fora do meu alcance. Meu alcance era imenso, mas captava apenas os ruídos. Já as consequências, não! Essas eu não só captava como introjetava e fazia elas de vestimenta - identidade, mau caratismo. Ai de mim! Por pouco não perdi a cabeça.  A cabeça que a todo custo tentou sobreviver, fez das tripas coração como se diz. E não é que tem tanta verdade nisso tudo? Tripas de coração. Tripas de sentir muito.  Minha cabeça pedia socorro, e agora o tem: meu alcance enfim me alcançou. Os ruídos ficaram pra fora, as consequências são passado. E aqui dentro, agora e para sempre, tripas serão tripas e corações serão corações.

Exercícios de escrita - Infelicidade comum

A mesa era firme, isso não era possível negar. A madeira não era um compensado, mas também não era rústica. Não que eu entenda de madeira, mas com certeza não era um pedaço de madeira retirado diretamente de sua árvore, houve um processo ali. A madeira foi colhida, cortada, cortada e cortada mais uma vez, depois colada, possivelmente, em cima de outro pedaço de madeira. Talvez seja um compensado. Não que eu entenda de compensado. O fato é que a madeira era boa e a mesa, firme. Era firme. E por que isso é tão importante? Porque toda a sua vida havia sido posta sobre ela. Era a mesa, um monitor e um notebook. Tudo isso era só isso, e vice-versa.  Naquela mesa, por horas, ela ficaria debruçada. Sentada, é claro, em uma cadeira feita da mesma madeira firme não rústica da mesa. Era um conjunto: a mesa, dobrável, a cadeira, dobrável. Pertenceram a um local muito especial para ela.  E por isso, por ali, ficaria horas e horas debruçada, nem se importando com a falta de encosto inteiri...