Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de julho, 2018

Dor, escarro

Dor. Escarro. Cara amarrada. Quem reclama mal sabe o que se passa naquela cabeça. Que pensa, como pensa. Um instante de silêncio é o próprio diamante - de sangue -, enclausurado em meio à névoa, em meio à chama, daquela cabeça, que pensa. Por todos os lados, por todas as dores. E como tem dores. Uma dor, um escarro. Que sai amarelo na pia do banheiro, na porta do quarto, no azulejo da sala. Chega a ser verde, a dor, não o escarro. Chega a ser cinza, a dor, não o descaso. Chega a doer, tanto, a dor, que de culpa morreu mais jovem - um pouquinho a cada dia, um segundo a cada vida. Eram muitas vidas. Todas fruto de uma só dor: a da vergonha. E como escarra, essa marca que leva consigo, desde quando contava as cores em seu modo primário - singelo -, simples e leve. Essa marca que a segue e a remarca e a assalta todas as vezes; essa marca, perseguindo um sem fim de facetas de sua própria identidade. Essa marca, marca. Marcou. Para sempre. A dor, o escarro, a vergonha, a culpa. O errar...

A chaminha

Até o raiar do sol, a vela ali estará. A chaminha, embora pequena e pontiaguda, o miolinho azul quase não se vendo, se enxergando - se reconhecendo? - segue ali, enquanto o dia vai clareando. Enquanto a luz vai entrando, ziguezagueando pela retidão dos raios e se colocando para dentro por toda a abertura daquela casa que, ainda que fria, era leve, e respirava. A chama estaria e estará lá. A brilhar e iluminar, enquanto o dia vai clareando e outra luz, ainda mais forte, lhe cegará. Mas não da cegueira que paralisa, que atormenta o ser humano correndo à louca pelas ruas, sem sentir o sentido da via, a direção da estrada, não. Era a cegueira de algo sutil, ao mesmo tempo que profundo, a cegueira temporária, necessária, para que todo o corpo interno - dos órgãos ao esqueleto - se recuperasse da noite anterior. E quando recupera-se, ah sim, tudo muda. Tudo se abre, e tudo queima, mas não daquele fogo que machuca, as bolhas saltando da pele em carne em viva, enquanto estouram em um grito...

Genevive sabia

O caso é que não era bem assim. Quando Genevive veio a este mundo, definitivamente não desejava ser mais uma. Ou sequer sonhava em ser todas. Todas as outras, menos ela. Não. O caso não era bem assim. Genevive sempre teve certeza daquilo que buscava, sim ela sabia, pois sempre soube, do nascer ao morrer, do acordar ao adormecer, a todo o momento, em todos os seus poros, pele, até o subir e descer do diafragma. Até os ossos, se assim você quiser, caro leitor. Tamanha era a certeza de Genevive. Não, o caso não era bem assim. O caso era que Genevive não se conhecia mais. Sabia sim quem era, mas não o reconhecia. A quem? Ninguém sabe. Essa estranha que se lhe apresentava, em frente ao espelho, todos os dias – manhã, tardes e mil noites, quando menos queria saber. Essa estranha, pois bem, se lhe apresentava, quase como um tapa na cara que ousava lhe dizer “ande, Genevive, reconheça-me, abra-se para mim, pois eu sou você, e você é muito mais do que eu poderia ser”. Essa intrusa,...