O caso é que não era bem assim.
Quando Genevive veio a este mundo, definitivamente não desejava ser
mais uma. Ou sequer sonhava em ser todas. Todas as outras, menos ela.
Não. O caso não era bem assim. Genevive sempre teve certeza daquilo
que buscava, sim ela sabia, pois sempre soube, do nascer ao morrer,
do acordar ao adormecer, a todo o momento, em todos os seus poros,
pele, até o subir e descer do diafragma. Até os ossos, se assim
você quiser, caro leitor. Tamanha era a certeza de Genevive.
Não, o caso não era bem assim. O caso
era que Genevive não se conhecia mais. Sabia sim quem era, mas não
o reconhecia. A quem? Ninguém sabe. Essa estranha que se lhe
apresentava, em frente ao espelho, todos os dias – manhã, tardes e
mil noites, quando menos queria saber. Essa estranha, pois bem, se
lhe apresentava, quase como um tapa na cara que ousava lhe dizer
“ande, Genevive, reconheça-me, abra-se para mim, pois eu sou você,
e você é muito mais do que eu poderia ser”.
Essa intrusa, essa ilógica, - ao mesmo
tempo racional -, que se lhe aparecia também entre os sonhos, ah
sim, Genevive sonhava, e como! Genevive amava seus sonhos, eram
sempre os mais loucos e difusos e vívidos e sólidos sonhos, sempre
tão claros às suas córneas, mas tão subjetivos em suas mensagens
– ilusões? Mas os sonhos de Genevive não são para o agora. Não.
O caso era que era bem assim: Genevive não suportava mais. O que?
Ora, o que você imagina, querido leitor? Ela mesma, ou melhor, não
saber quem era ela mesma. Essa mesma que se lhe aparecia entre o
reflexo daqueles vidros de fachadas de loja – recuso-me, caro
leitor, a usar a palavra vitrine -, essa estranha que tentava um
aceno, um bocejo, uma mirada nem que por um segundo a esta silhoueta
refletida em vidro – meio escura, meio escuro, meia ela, meio não
ela -, enfim, caro leitor, aquele ser, aquela outra, se lhe aparecia
a todo o momento. Dia e noite. Lua cheia, lua nova. Inverno, verão.
Ser, não ser.
Pois seja, Genevive, apenas seja. Seja
muito. Seja todas. Seja ela. Só seja. Aquela a quem lhe olha do
outro lado do espelho, e tenta um aceno, um sorriso, ela está vindo,
ela está ali, sempre estivera. Ainda que não estivesse, cara
Genevive, ela está lá. Neste momento. Quando olhares para o
espelho, adivinhe só, ali estará, como tudo e todo o universo está,
brilhando lá no infinito e ao mesmo tempo aqui dentro, em cada
célula, em cada átomo, em cada partícula de hidrogênio, berílio,
mercúrio, mel. Genevive, o caso era que era outro. Mais complexo,
mais inteiro, mas nem por isso menos sério, menos incrível. Pois
era incrível, como Genevive. Como Amélia e Esmeralda, sejam lá
quem sejam elas. Sim Genevive, e caro leitor, nada poderia ser mais
incrível, pois era ela, aquela que lhe acenava, todos os dias,
querendo ou não querendo, desejando, temendo, se mordendo.
Por dentro, Genevive, o caso era que
era bem louco. Um segredo, quase, poderia-se dizer. Mas Genevive já
não sabia, já não lia naquelas entrelinhas – antes tão
conhecidas, tão familiares, tão inteligíveis ao mesmo tempo que
intangíveis, inquebráveis, memoráveis. Quantos adjetivos,
Genevive, onde está essa cabeça? Aqui dentro, ela diz. Ela ousa
dizer, então. Quanta graça. Pois bem, Genevive, o que dirá? Hein?
O caso era que não sabia.
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