Ai de mim, eu dizia. Ai de mim. Mas o que eu não sabia é que de mim não tinha nada. Ou melhor, tinha tudo, mas não porque eu queria. Tinha tudo de errado em mim por causas que estavam fora do meu alcance. Meu alcance era imenso, mas captava apenas os ruídos. Já as consequências, não! Essas eu não só captava como introjetava e fazia elas de vestimenta - identidade, mau caratismo. Ai de mim! Por pouco não perdi a cabeça. A cabeça que a todo custo tentou sobreviver, fez das tripas coração como se diz. E não é que tem tanta verdade nisso tudo? Tripas de coração. Tripas de sentir muito. Minha cabeça pedia socorro, e agora o tem: meu alcance enfim me alcançou. Os ruídos ficaram pra fora, as consequências são passado. E aqui dentro, agora e para sempre, tripas serão tripas e corações serão corações.
A mesa era firme, isso não era possível negar. A madeira não era um compensado, mas também não era rústica. Não que eu entenda de madeira, mas com certeza não era um pedaço de madeira retirado diretamente de sua árvore, houve um processo ali. A madeira foi colhida, cortada, cortada e cortada mais uma vez, depois colada, possivelmente, em cima de outro pedaço de madeira. Talvez seja um compensado. Não que eu entenda de compensado. O fato é que a madeira era boa e a mesa, firme. Era firme. E por que isso é tão importante? Porque toda a sua vida havia sido posta sobre ela. Era a mesa, um monitor e um notebook. Tudo isso era só isso, e vice-versa. Naquela mesa, por horas, ela ficaria debruçada. Sentada, é claro, em uma cadeira feita da mesma madeira firme não rústica da mesa. Era um conjunto: a mesa, dobrável, a cadeira, dobrável. Pertenceram a um local muito especial para ela. E por isso, por ali, ficaria horas e horas debruçada, nem se importando com a falta de encosto inteiri...