Um tanto mais difícil é escrever quando tudo vai bem. Sabe? Quando as peças estão encaixadas dentro do ventre, do peito, do coração. Um tanto mais difícil é estar no mundo, estranhamente.
Porque, embora a lua não seja mais minguante - quer dizer, ela é, sempre será, mas não só, não apenas um semicírculo de côncavo gorducho -, embora a lua também seja cheia - e ela sabe que é -, ainda assim, é difícil.
É difícil escrever porque o escrever era um desafogo. Um se consumir às avessas, de dentro pra fora. Nunca foi de escrever quando tudo estava bem. E tudo está bem agora. E agora?
Agora é. Agora está. Agora tem espaço. Espaço de verdade, tridimensional, físico, com viga, com fundação, com as janelas recolhidas da demolição - da demolição do mal. O espaço é de verdade e, por isso, mais amedrontador. Porque as palavras que são colocadas ali importam. TODAS ELAS. Nada passa despercebido.
Que bom. Mas que medo.
Um tanto mais difícil é escrever quando tudo vai bem, mas só assim para saber. Sabe? Pra saber se o que está aqui dentro tem condições de estar aqui fora. Aqui fora, eu chamo, porque é aqui que estou: fora, no mundo. Onde cada palavra importa.
É difícil, mas é só o começo.
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