Eu gosto de escrever. Sempre gostei.
É o que dizem, muitos daqueles que gostam de escrever.
Mas como alguém que também gosta de escrever porque sempre gostou de escrever, eu sei que o sempre é uma mentira.
Ninguém nasce gostando de escrever. A gente nasce. E só.
A gente nasce, e a gente dói.
A gente cresce, a gente escuta palavras, a gente chora, a gente traduz em risos e lágrimas e seios tudo aquilo que nos consome por dentro:
A fome
A dor
O medo
O silêncio.
O silêncio — é por isso que eu escrevo.
*
Porque eu nasci, eu chorei, eu doí. Eu amei, claro, muito, com toda a força que um coraçãozinho podia aguentar em suas mãos pequeninhas, e apertar, agarrar com força àquela que nos dá amor — ou alimento, ou o que quer que seja.
Eu amei. Eu sei que amei.
Mas não foi suficiente.
Em algum momento, as minhas mãozinhas não aguentaram. Elas doeram, de tanto apertar, de tanto agarrar, de tanto não querer que ela se vá.
E não é que ela se foi. Não.
Ela sempre esteve ali.
Ela está ali até hoje.
Mas não no meu coração.
Na minha barriga, talvez.
*
Na minha barriga, todo o amor, todo o leite, todo o torpor de quem acaba de comer — aquele torpor gostoso, da barriga regozijada, quentinha e cheia, redondinha como o orbe de natal que enfeita a árvore (mas essa é uma história para outra hora).
Na minha barriga é onde eu encontro o amor.
*
Mas e o silêncio?
O silêncio é o pior de todos.
O silêncio empanzina as entranhas, me faz calar o amor, o leite, o torpor, o regozijo.
O silêncio impede o choro, impede o riso, impede o temor — sim, até ele, o medo, esse monstro gigantesco, escuro como a noite e imenso como a montanha.
O medo ficou impedido.
O amor ficou dilacerado.
E é por isso que eu escrevo.
E é por isso que eu não gosto.
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