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O terror que não dava medo


O terror estava ali, mas não dava medo. Era um terror refinado, elegante, sóbrio o suficiente para se fazer aparecer, mas agudo e estridente verdadeiramente real para ficar totalmente calado.

Era uma escola de garotas. Apenas garotas. Elas vestiam aquelas roupas tão caricatas, mas nem por isso menos adoráveis. A saia cinza de pregas, a camisa branca e o colete inteiriço, protegendo o colo, o peito e as costas. Os braços? Livres, desde os ombros. Seus ombros, juvenis, mas fortes, ambiciosos.

Contar um sonho, em um diário de sonhos, relatá-lo em seus detalhes para que a psicanalista loira atrás do divã os analise e interprete para você é sempre muito difícil para mim. Porque meus sonhos nunca são pequenos, nunca são ralos de conteúdo, não. São carregados, pesados, cheios de informação desde as cores — no que no cinema é chamado de fotografia -, desde os objetos, os símbolos, as palavras ditas, as palavras escritas.

Mas eu tento. Tento reescrever, mais do que cenas dignas do filme mais artístico, o que senti, o que vivi, o que me tocou, o que ficou em mim.

Esta é mais uma tentativa.

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Estamos na escola. Eram só garotas, mas também vi garotos. Vi aquele garoto. O menino loiro, de olhos azuis, o meu segundo primeiro amor, da terceira série para o ensino médio. Sempre foi ele.

Eu tentava resolver um problema de matemática. Acho que ele estava me ajudando. Era bastante difícil, mas eu sentia que aos poucos ia fazendo sentido.

Mas sobre aquela escola, não era nada que eu já tivesse visto. Havia corredores cinza, mas não era uma escola. Era um programa, um projeto. De terror.

O objetivo era sobreviver, naquele programa, ou projeto. E para isso, era preciso matar. Matar o coleguinha. Eram todas mulheres, digo, garotas. De saia de pregas, estudantes colegiais, dessa escola cinza e sinistra.

Elas eram lindas, cabelos lisos e compridos. Castanhos claros, com uma luz aqui e ali.

E era preciso acabar com elas. Mas, eu não queria. Ninguém queria. Era um programa, um projeto, um jogo terrível, de vida ou morte. E não qualquer morte, era uma morte violenta, sangrenta, horrenda, sem qualquer dignidade.

Os meios, eram todos possíveis. Incluindo tortura, talvez. Difícil lembrar. Mas a sensação era essa, de terror, refinado, elegante — tal como aquela escola -, de que eu poderia morrer, se não matasse.

Descobrimos que era um jogo. Descobrimos que a professora — ou mestra, ou líder, como líder de um culto -, era uma sobrevivente, que para estar ali hoje precisou matar sem escrúpulos. Morte violenta, sangrenta e deliciosamente prazerosa.

Todos os monstros, e eram tantos, vinham à superfície, os animais que nos habitam, lá nas profundezas, eram soltos, sem coleiras, sem amarras. E tinham caninos. E estavam loucos. Loucos de ódio de tantos anos presos, loucos de desejo, de tesão, de violência gratuita. Ou nem tão gratuita assim.

Animais revidam, lembra?

Era um prazer sanguinolento.

Eu matei. Ou fui morta. Havia um precipício, no fim do corredor cinza, de concreto. Um precipício do qual não se enxergava o fim porque cheio de floresta, mata atlântica: verde, folhuda, cheia, úmida. Uma delícia, um corredor com uma vista, moraria aqui.

Também havia calabouços, em algum momento da história. E alguém esteve preso ali, enterrado vivo, torturado, sofrido. Mas a descoberta do calabouço — em meio à mata atlântica — foi tão rápida, que tudo passou tão rápido, como num piscar de olhos dentro de um sonho. Era um misto de pesar, de liberdade, de prazer e umidade.

A tortura e o prazer andam juntos. Há deleite na dor. Na dor daquelas garotas, de cabelos lisos e compridos, de saias de prega, camisas e coletes inteiriços.

E há dor e prazer em mim.

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