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A chaminha

Até o raiar do sol, a vela ali estará. A chaminha, embora pequena e pontiaguda, o miolinho azul quase não se vendo, se enxergando - se reconhecendo? - segue ali, enquanto o dia vai clareando. Enquanto a luz vai entrando, ziguezagueando pela retidão dos raios e se colocando para dentro por toda a abertura daquela casa que, ainda que fria, era leve, e respirava.

A chama estaria e estará lá. A brilhar e iluminar, enquanto o dia vai clareando e outra luz, ainda mais forte, lhe cegará. Mas não da cegueira que paralisa, que atormenta o ser humano correndo à louca pelas ruas, sem sentir o sentido da via, a direção da estrada, não. Era a cegueira de algo sutil, ao mesmo tempo que profundo, a cegueira temporária, necessária, para que todo o corpo interno - dos órgãos ao esqueleto - se recuperasse da noite anterior.

E quando recupera-se, ah sim, tudo muda. Tudo se abre, e tudo queima, mas não daquele fogo que machuca, as bolhas saltando da pele em carne em viva, enquanto estouram em um grito de dor dilacerante em meio à carne, em meio ao corpo. Não. É uma chaminha, que embora pequena e pontiaguda, é aveludada, um amarelo claro macio, cheiroso, quase tangível, uma chaminha que alegra, que vai lhe sorrindo, enquanto o dia está a iluminar.

Esta chaminha, a ela damos o nome de nós.

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