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À idéia

Nas mãos, uma caneta.
Nos pensamentos, nada.
É sempre assim.
A idéia, que de um mundo distante e abstrato veio migrar para um mundo mais vago e misterioso, a idéia, ela continua lá, pulsando, correndo, batendo e pulsando. Ela não desiste. Apenas hesita.

Enquanto idéia, nada lhe pode acontecer. Nada lhe pode ferir. Enquanto ela é apenas idéia, tudo é possível, tudo soa perfeito. Mas apenas como uma idéia. Quando a mão tenta intervir, quando o pensamento ordena que a idéia se concretize, tudo então desmorona. Tudo escorre e se perde por entre os espaços sinápticos daquele mundo vago e misterioso.

Afinal, não se diz para uma idéia "aconteça!" Não se pede para uma idéia que ela desça de seu lugar e que vá, rápida e clara, para as mãos de quem por ela está sempre à espera. Não. Não se trata uma idéia dessa maneira. É preciso que lhe provem, que provem à idéia, de que o tempo aqui fora está bom. É preciso dar segurança à idéia, dizer-lhe que aqui fora será mais bela e perfeita do que em seu mundo vago.

Mas as mãos, as mãos se recusam. "Sou melhor do que uma simples idéia." São as mãos que reclamam a falta de tato (justo as mãos.) São as mãos que esperneiam e anseiam por mais atenção e rogo.

Então a idéia se cala. E vai para onde lhe der vontade, para onde não tenha que ouvir dessas mãos infames palavras tão arrogantes. Vai para onde lhe convier... Enfim, foi-se.

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