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Escritores não foram feitos para serem amados

Escritores não foram feitos para serem amados. Escritores foram feitos para amar. Para amar e sofrer. Porque sem saber o que é dor, sem saber o que é o amor (em 1ª pessoa e sempre no singular) não é possível escrever. Não é possível ter algo para dizer. Dizer e fazer o outro sentir.
Mas, ser amado? Não! Um escritor não precisa disso.

Posso fingir que sou amado. Mas não posso fingir que sofro. Posso fechar os olhos e imaginar outros olhos me observando enquanto durmo. Posso inventar uma história em que eu sou o grande e único e verdadeiro amor de outra pessoa. Mas não posso fingir que derramo uma lágrima. É preciso sofrer.

Mas não é você quem escolhe. Você não decide ser um escritor e então, decide sofrer. Primeiro você sofre. Depois, torna-se um escritor. Mas não basta sofrer por um ou dois dias. Ou por um ou dois amores. É preciso sofrer sempre, constantemente. É preciso estar amando sempre. Amando e desamando por toda a vida. Mas ser amado? Isso nunca!

Claro, você até deseja ser amado. Na verdade, isso é tudo o que você quer. Você chora e morre por cada amor não correspondido. Você grita e chora e sofre e deseja ardentemente ser amado. E quanto maior é o desejo, maior a impossibilidade e maior o sofrimento. E quanto mais sofrimento, mais textos, mais páginas, mais se é um escritor.

Sexo? Casamento? Isso não é amor. Ou melhor, é, mas apenas unilateralmente. Quem ama é você. Mas você não é amado. Você é um escritor. E escritores não foram feitos para serem amados. Nós inspiramos. Mas não servimos como inspiração. Nosso amor existe apenas para servir de clichê para aqueles que serão amados.
E é assim e pronto.

.

Comentários

Rafael Hertel disse…
ô loko. Nem sofro por amor, nem sou escritor. Mas lendo seu texto, lembro de um poema de um conhecido meu. Aqui está uma parte:

Gil Salomon

Engana-se quem pensa
Que para escrever me inspiro
Quando muito transpiro
Numa catarse dolorida
Todas as coisas que a vida me introjetou.
Deixo fluir por meus dedos
Meus mais obscuros segredos,
as mais pungestas perguntas,
minhas vitórias, meus medos.
Se muitas vezes não canto o lado bela da vida
É porque me fere o pranto
que invade a grande avenida
Pela qual somos levados
(...)
e assim continua

axei um raciocínio parecido.
hasta.
Rafael Hertel disse…
nao xeguei a explicar o por quê disso.
No seu texto é alguem que precisa sofre para por isso no papel.
já na poesia é alguém que escreve só o que viveu. Esta é a relação.

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