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O corpo


Um dia eu acordei e tinha dois braços e duas pernas – era o que vim a descobrir depois, que cada uma dessas coisas compridas que se alongavam para além do toquinho de massa que temos no meio da gente, chamado tronco, tinha nome. 

Um dia acordei e, entre os braços e pouco acima das pernas, tinha esse toquinho de massa, chamado tronco, e de cada braço que saía do tronco outras partes se apresentavam: as mãos, com cinco dedos em cada uma. 

Da mesma forma, de cada perna, esse amontado de massa se prolongava também em pés, cada um novamente – vejam só – com cinco dedos em cada pé. Do tronco, mais um alongamento se exibia: a cabeça, que fica acima do pescoço – dolorido, calejado do travesseiro que não servia para aliviar todos os tormentos e pesos de se estar vivo.

Pois um dia eu acordei e estava vivo, em um corpo com membros, com pele e também outros órgãos e veias e ossos e uma mente que pensava. Que estranha sensação! De ter um corpo, ao mesmo tempo em que esse corpo parecia não corresponder aos meus comandos. 

Logo eu, logo os meus, comandos de um ser que sempre soubera o que é estar vivo. E não apenas em alma, em pura essência, não, mas também em matéria, sobretudo matéria. Pois logo eu, que nunca me neguei ao prazer, que sempre o estimulava, o buscava, o realizava e quem sempre sabia como voltar a ele, tudo de novo, desde o começo: prazer, estímulo, busca, realização. Logo eu, um ser todo feito de prazer.

Um dia acordei e como um alienígena teletransportado para outro mundo – um bem louco e estranho -, me desmaterializei do meu corpo original – feito de pura beleza, pura energia, puro amor e prazer -, e fui como que remendando novamente um outro corpo, as partes juntadas num improviso tenebroso e desajustado, resultando nesse amontoado semi-organizado, dividido em pernas e braços, tronco e cabeça, mas totalmente desconexo, alheio ao prazer, à essência, ao amor.

Um dia eu apaguei. Desliguei os disjuntores desse corpo amontoado de massa, só por um minuto, só para um momento de paz.

E foi assim que vim parar aqui.



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