Pular para o conteúdo principal

Voz grave

Uma voz grave. Soando no ouvido. No meu ouvido — a orelha interna aguçada, atenta a cada nota, a cada respiro, curto ou longo ou rápido, os pelos do tímpano eriçados.

Era uma voz grave, que cantava junto a outra voz, mais suave, mais baixa: meio fraca. Parecia fraca e era: fraca como o espírito que a entoava (que pena desse espírito).

Mas a voz fraca — por vezes insistente, estridente, pedinte como um mendigo sem casa, como um indivíduo sem amor — também cantava forte, às vezes. Mas as notas, tão altas, tão agudas, estilhaçavam os copos, as taças, o cristal. O cristal do qual era feito seu espírito, embora opaco.

Mas era só vapor — da água do hálito de um ser muito maior, muito mais grande, mais tirano. O vapor do bafo que lhe gritava, que lhe ameaçava, que lhe cantava cantigas de ninar, mas sem o sono (o sono que nunca vinha, só o medo, naquela criança).

A voz grave deu forças, pois o ouvido, a orelha interna, a ouviu. Graças à deus. Graças deu, finalmente, a quem lhe fazia torcida, a quem lhe amava verdadeiramente — sem esperar nada em troca. Amor por amor. Amar por acreditar, naquela alma, daquela criança, tão assustada, tão afastada, mas tão perto, da vida. E vivia.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Exercícios de escrita - Infelicidade comum

A mesa era firme, isso não era possível negar. A madeira não era um compensado, mas também não era rústica. Não que eu entenda de madeira, mas com certeza não era um pedaço de madeira retirado diretamente de sua árvore, houve um processo ali. A madeira foi colhida, cortada, cortada e cortada mais uma vez, depois colada, possivelmente, em cima de outro pedaço de madeira. Talvez seja um compensado. Não que eu entenda de compensado. O fato é que a madeira era boa e a mesa, firme. Era firme. E por que isso é tão importante? Porque toda a sua vida havia sido posta sobre ela. Era a mesa, um monitor e um notebook. Tudo isso era só isso, e vice-versa.  Naquela mesa, por horas, ela ficaria debruçada. Sentada, é claro, em uma cadeira feita da mesma madeira firme não rústica da mesa. Era um conjunto: a mesa, dobrável, a cadeira, dobrável. Pertenceram a um local muito especial para ela.  E por isso, por ali, ficaria horas e horas debruçada, nem se importando com a falta de encosto inteiri...

A complexidade das coisas simples

Se tem algo que é duro e denso e pesado como chumbo é a complexidade das coisas simples - e Kundera já cantara essa bola antes. Ou quase. A diferença é que enquanto uma coisa é pesada ou leve, há um espaço tridimensional que está mais amplo, menos denso, volátil, ao ponto de escapar pelos dedos quando leve, e o inverso quando pesado. Porém, ainda se trata de tangibilidade, de conseguir pegar com a mão, ou não. Mas quando a coisa é simples, significa, em primeiro lugar, que ela existe, ela está dada - tem três dimensões mensuráveis possíveis de serem captadas com os cinco sentidos.  Em segundo, significa que todas as suas partes, premissas, personagens envolvidos na trama - geralmente as do coração -, seguem um roteiro de ações coerente, ação e reação, causa e consequência, isso porque aquilo. Os fatos, manifestados em atitudes, decisões, comportamentos, no mundo externo, no mundo real, são translucidamente simples, modestos, até pequenos ou proporcionais aos outros atos, fatos, ati...

Johnny, don't go

Johnny era assim: livre. Johnny gostava de motos, de uísque e de cigarros. Ele era assim: adorava ser livre. Johnny tinha jaqueta de couro, tatuagem de cobra e um sorriso mau, deliciosamente mau. Ele usava botas, um lenço pendurado no cinto. Johnny era assim: estava sempre de cinto. Johnny tinha uma garota. Jane. Jane era assim: linda. Johnny gostava de Jane, gostava do cheiro de Jane, gostava das pernas de Jane. Jane era assim: quente. Um dia, Johnny acordou se sentindo estranho. Deliciosamente estranho. Beijou a nuca suave de Jane, passou a mão por sua cintura e levantou-se. No banheiro, Johnny olhou-se no espelho demoradamente, profundamente, viu-se inteiramente. Inteiramente livre. Johnny acordou Jane e disse: gata, eu tenho que ir. Jane não entendeu. “Eu preciso ir embora”. “Então vá”, disse Jane, “mas quando voltar me traga umas flores”. E Johnny saiu. Jane passou o dia esperando Johnny. E a noite. E o dia seguinte. E os próximos dias seguintes. Jane não entendeu. Jane gostava de...