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Voz grave

Uma voz grave. Soando no ouvido. No meu ouvido — a orelha interna aguçada, atenta a cada nota, a cada respiro, curto ou longo ou rápido, os pelos do tímpano eriçados.

Era uma voz grave, que cantava junto a outra voz, mais suave, mais baixa: meio fraca. Parecia fraca e era: fraca como o espírito que a entoava (que pena desse espírito).

Mas a voz fraca — por vezes insistente, estridente, pedinte como um mendigo sem casa, como um indivíduo sem amor — também cantava forte, às vezes. Mas as notas, tão altas, tão agudas, estilhaçavam os copos, as taças, o cristal. O cristal do qual era feito seu espírito, embora opaco.

Mas era só vapor — da água do hálito de um ser muito maior, muito mais grande, mais tirano. O vapor do bafo que lhe gritava, que lhe ameaçava, que lhe cantava cantigas de ninar, mas sem o sono (o sono que nunca vinha, só o medo, naquela criança).

A voz grave deu forças, pois o ouvido, a orelha interna, a ouviu. Graças à deus. Graças deu, finalmente, a quem lhe fazia torcida, a quem lhe amava verdadeiramente — sem esperar nada em troca. Amor por amor. Amar por acreditar, naquela alma, daquela criança, tão assustada, tão afastada, mas tão perto, da vida. E vivia.


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