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O novo mandamento

O desejo era imenso. Não tanto por fugazes e efêmeros prazeres daqui e de acolá: um lindo cosmopolitan carmim, a boca rosada e perfeitamente delineada que me olhava do outro lado da mesa, o perfume que exalava de seu corpo. Não. O desejo parecia sublime, quase que de outro mundo - talvez porque realmente fosse. Não era daqui, do mundo terreno, telúrico, da Terra redonda - com seu recôndito interior venoso, por onde rios de lava serpenteavam, devorando e, ao mesmo tempo, transmutando a matéria.

O desejo era imaterial, indizível e, por isso mesmo, impossível de ser satisfeito. Podia tentar satisfazê-lo e tentava, tateando por entre corpos - o seu, o de outros-, por entre camas e suores, entre doces e outras delícias, mas tão pobres, tão fracas.

Buscava plenitude, mas tudo o que encontrava era a pá: a pá que cavava, cada dia mais e mais, o buraco que lhe engolia de dentro para fora. E tão cansada do buraco estava - achava que só ela sabia o que era isso. Mas que engano. Se engana e, então, enganava aos outros.

Pois, decidiu: do buraco, sairia pelo outro lado. E a plenos pulmões, enuncia: abraçai o caos do abismo, o caos do nada - do completo vazio. O vazio que, agora, não mais ameaça, senão que encoraja. Olhai-o, mirando bem no centro do vácuo e ali, sustentando o olhar, a dor, a ira, o desejo indizível, escuta: o som do desespero rindo de volta, mas, desta vez, não por medo, mas por graça e contento.

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