I
Pausa. Corta. Tempo.
Interrompo as tarefas do dia, o trabalho da semana, o acordar-viver-dormir-acordar do mês, ano após ano, seguidos, ininterruptamente. Paro com tudo isso, nesse momento, agora: fico, então, em suspenso.
As tarefas do dia são feitas: limpo a casa, varro o chão - o pano passado a cada 15 dias, a retirada do pó, no entanto, menos frequente. O trabalho, na empresa, segue seu ritmo, sem dores, sem reclamação, tudo nos seus conformes. Você entende que, como viver a rotina, ela também já entendia, está superado: amadurecimento, sim; responsabilidade, também. Etc, etc, etc: confere. Tudo confere.
Mas, em algum ponto, naquele ponto, tudo para, eu paro: garota interrompida.
II
Uma bola. Não. Um círculo. Quase. Talvez uma bolha. Sim, uma bolha às avessas, ao contrário, verdadeiro buraco negro - denso, extremamente; mas alguém sabe o que há ali?
Eu não sabia, não sei. Quando tento descrever meu mundo interno não consigo. Mas o pressinto, e ele é uma bolha ao contrário, como um buraco negro, cercado pelo horizonte de eventos. Não sei o que há ali - não creio que seja algo terrível, tampouco. Não. Mas sei que, quando se trata de pegá-lo em minhas mãos e devorá-lo - fundindo-nos -, termino surfando em uma prancha de prata sobre as ondas do horizonte de eventos, para bem longe. Fugindo, mas com estilo.
Me mantenho longe, apenas cercando pelos cantos, correndo pelas beiradas, nunca olhando diretamente.
Dizem que ao olhar Medusa nos olhos nos tornamos pedras, viramos matéria desalmada.
III
A sensação é de estar suspensa no ar. No ar, ou na mente. Não ser corpo, não ser matéria, não ter raízes - seja de carne, seja na terra. Mas há uma existência, de algo, apenas não sei do quê. A sensação, como digo, é de ser um ser suspenso, etéreo, uma nuvem difusa de identidade - identidade clandestina.
As tarefas do dia são feitas, a bolha ao contrário é espreitada pelas beiradas, e enquanto isso eu duvido que eu mesma exista. Estou suspensa: no ar, em partículas, porém, imateriais. Flutuo, sem peso, como se não fora ligada a um corpo, carne sob gordura.
Flutuo, como a nuvem difusa, mas não sou a nuvem. Talvez o vento, que a carrega. Enquanto um dia segue pós o outro, eu sigo suspensa. No ar. Não me aterro, não me sento, não me finco: é inefável. O medo é como o escuro, ou o escuro dá medo. Mas desapego, deixo estar, deixo ser - embora eu não seja. Ainda. Será que um dia?
Estou suspensa. Mas, para viver, é preciso de raiz?
Pausa. Corta. Tempo.
Interrompo as tarefas do dia, o trabalho da semana, o acordar-viver-dormir-acordar do mês, ano após ano, seguidos, ininterruptamente. Paro com tudo isso, nesse momento, agora: fico, então, em suspenso.
As tarefas do dia são feitas: limpo a casa, varro o chão - o pano passado a cada 15 dias, a retirada do pó, no entanto, menos frequente. O trabalho, na empresa, segue seu ritmo, sem dores, sem reclamação, tudo nos seus conformes. Você entende que, como viver a rotina, ela também já entendia, está superado: amadurecimento, sim; responsabilidade, também. Etc, etc, etc: confere. Tudo confere.
Mas, em algum ponto, naquele ponto, tudo para, eu paro: garota interrompida.
II
Uma bola. Não. Um círculo. Quase. Talvez uma bolha. Sim, uma bolha às avessas, ao contrário, verdadeiro buraco negro - denso, extremamente; mas alguém sabe o que há ali?
Eu não sabia, não sei. Quando tento descrever meu mundo interno não consigo. Mas o pressinto, e ele é uma bolha ao contrário, como um buraco negro, cercado pelo horizonte de eventos. Não sei o que há ali - não creio que seja algo terrível, tampouco. Não. Mas sei que, quando se trata de pegá-lo em minhas mãos e devorá-lo - fundindo-nos -, termino surfando em uma prancha de prata sobre as ondas do horizonte de eventos, para bem longe. Fugindo, mas com estilo.
Me mantenho longe, apenas cercando pelos cantos, correndo pelas beiradas, nunca olhando diretamente.
Dizem que ao olhar Medusa nos olhos nos tornamos pedras, viramos matéria desalmada.
III
A sensação é de estar suspensa no ar. No ar, ou na mente. Não ser corpo, não ser matéria, não ter raízes - seja de carne, seja na terra. Mas há uma existência, de algo, apenas não sei do quê. A sensação, como digo, é de ser um ser suspenso, etéreo, uma nuvem difusa de identidade - identidade clandestina.
As tarefas do dia são feitas, a bolha ao contrário é espreitada pelas beiradas, e enquanto isso eu duvido que eu mesma exista. Estou suspensa: no ar, em partículas, porém, imateriais. Flutuo, sem peso, como se não fora ligada a um corpo, carne sob gordura.
Flutuo, como a nuvem difusa, mas não sou a nuvem. Talvez o vento, que a carrega. Enquanto um dia segue pós o outro, eu sigo suspensa. No ar. Não me aterro, não me sento, não me finco: é inefável. O medo é como o escuro, ou o escuro dá medo. Mas desapego, deixo estar, deixo ser - embora eu não seja. Ainda. Será que um dia?
Estou suspensa. Mas, para viver, é preciso de raiz?
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