Pular para o conteúdo principal

Eu

O universo sempre foi gentil comigo, enquanto eu mesma não conseguia ser.
O universo me deu flores, me deu amores, enquanto eu mesma não sabia os receber.
Não é que eu não quisesse, ou apenas achasse - como realmente acho - que não fazia por merecer. Era pior que isso. Era indizível, mas também não o era apenas por falta de palavras, era porque as palavras nunca haveriam de ser suficientes para acordar o que estivesse adormecido em inconsciente - coração? -; despertar o que estivesse quase como encravado em minhas entranhas, enraizado mesmo, como uma árvore milenar - só que sem a copa, sem os galhos, sem o verde, só a dor.

E quem poderia fazer algo a respeito? Ninguém. Ninguém a não ser eu mesma. Ninguém a não ser esse próprio coração, que dói, tanto, dói tudo, machuca e corrói e desgasta e se quebra. Se parte em mil pedaços, sem forças para respirar.
O ar dói. O azul do céu dói, o roxo da flor mais linda dói, porque belos, porque naturais, porque natureza, porque vida pura e justificada, ou seja, tudo o que eu não era, o que eu não consegui ser.
Mas tudo bem (não, mas ok). É assim que acontece, vamos levando - eu vou levando -, empurrando com a barriga é como dizem, "amanhã será melhor", afinal. Hahaha, só que não. Amanhã a dor ainda estará aqui, e os sonhos e fantasias e desejos e vontades mais uma vez desmoronarão, por etéreos demais, vagos demais, sustentando-se na base mais fraca que poderia haver: a fantasia de um Eu curado.


(Mas o universo sempre foi gentil comigo, enquanto tudo o que eu queria era poder amar de volta).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Irashaimase!

decidi que ia contar tudo. decidi que queria me expor. decidi chamar toda a atenção pra mim. decidi parecer ridícula pra quem quer que fosse. decidi tentar fazer piada. decidi que seria melhor levar tudo a sério. decidi que não ia mais me importar. decidi falar o que eu quiser. decidi que nada é tão importante. decidi criar coragem. decidi fazer o que eu tiver vontade. decidi não fazer diferença alguma: decidi criar um blog... ... e decidi começar mal. .

Ai de mim: das tripas, coração

 Ai de mim, eu dizia. Ai de mim.  Mas o que eu não sabia é que de mim não tinha nada.  Ou melhor, tinha tudo, mas não porque eu queria. Tinha tudo de errado em mim por causas que estavam fora do meu alcance. Meu alcance era imenso, mas captava apenas os ruídos. Já as consequências, não! Essas eu não só captava como introjetava e fazia elas de vestimenta - identidade, mau caratismo. Ai de mim! Por pouco não perdi a cabeça.  A cabeça que a todo custo tentou sobreviver, fez das tripas coração como se diz. E não é que tem tanta verdade nisso tudo? Tripas de coração. Tripas de sentir muito.  Minha cabeça pedia socorro, e agora o tem: meu alcance enfim me alcançou. Os ruídos ficaram pra fora, as consequências são passado. E aqui dentro, agora e para sempre, tripas serão tripas e corações serão corações.

Exercícios de escrita - Infelicidade comum

A mesa era firme, isso não era possível negar. A madeira não era um compensado, mas também não era rústica. Não que eu entenda de madeira, mas com certeza não era um pedaço de madeira retirado diretamente de sua árvore, houve um processo ali. A madeira foi colhida, cortada, cortada e cortada mais uma vez, depois colada, possivelmente, em cima de outro pedaço de madeira. Talvez seja um compensado. Não que eu entenda de compensado. O fato é que a madeira era boa e a mesa, firme. Era firme. E por que isso é tão importante? Porque toda a sua vida havia sido posta sobre ela. Era a mesa, um monitor e um notebook. Tudo isso era só isso, e vice-versa.  Naquela mesa, por horas, ela ficaria debruçada. Sentada, é claro, em uma cadeira feita da mesma madeira firme não rústica da mesa. Era um conjunto: a mesa, dobrável, a cadeira, dobrável. Pertenceram a um local muito especial para ela.  E por isso, por ali, ficaria horas e horas debruçada, nem se importando com a falta de encosto inteiri...