E foi naquele dia que eu me dei conta do passar dos anos.
Quando a gente é criança, precisa ser protegido. Minha mãe, claro, assumiu essa responsabilidade não assim por obrigação, mas por amor. Amor de mãe que só quer nosso bem. Um dia, eu inventei que queria fazer aulas de dança. Ela disse que tudo bem. Eu tinha oito anos e o colégio era longe, minha mãe teria que me levar.
A gente ia de ônibus. Pra me ajudar a embarcar, minha mãe segurava minha mão, me puxava para sua frente e me fazia subir os degraus. Era sempre assim, toda vez que a gente andava de ônibus: eu ia na frente, e ela ia atrás. Pura proteção.
E tinha também os momentos em que a gente andava a pé. Como toda criança, eu me distraía por qualquer coisa que chamasse a atenção. Aí, eu ia ficando para trás. Minha mãe, sempre atenta ao que poderia acontecer, logo me chamava e me pedia pra andar na sua frente "assim eu posso te ver". Era sempre assim, toda vez que a gente andava a pé: eu ia na frente, e ela ia atrás. Sempre protegendo.
E foi assim por muito tempo, mesmo depois que comecei a me virar sozinha - indo e vindo, de ônibus ou a pé. Se acontecia de pegarmos o mesmo ônibus, eu ia na frente, e ela, ia atrás.
Mas o tempo passa. As crianças crescem. Eu cresci.
Era uma tarde de segunda-feira da semana passada. Eu e minha mãe íamos pro centro, de ônibus. Ela ia trabalhar e eu ia ao médico. Na ida até o ponto, fomos caminhando e conversando. Tudo como sempre foi, mas só até esse momento.
Na hora de embarcar, pra minha surpresa, me peguei dizendo "não, sobe a mãe primeiro". E foi naquele dia que eu me dei conta do passar dos anos.
Minha atitude foi sem pensar, apenas me pareceu natural deixar minha mãe subir primeiro. São os anos passando. Agora, quem estava a proteger era eu. É claro que pra sempre será pra ela que eu vou pedir ajuda quando precisar. Pra sempre será pro colo dela que eu vou correr quando precisar de consolo e carinho. Mas de hoje em diante, eu protejo ela. De hoje em diante, minha mãe vai na frente, e eu é que vou atrás.
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Comentários
que bacana teus textos...q isso mulher..escreve bem pra caramba!
o do café eu quase chorei...
profundo, sem ser!
kisses