Já não havia mais nada nas prateleiras. Nem na cozinha, nem nos armários, nem em lugar nenhum. Precisava de álcool como precisava de amor. Sempre o amor. Por que era tão difícil esquecer palavras que foram ditas há muito tempo atrás? Por que era tão terrível conviver com as verdades silenciosas que corações pouco experientes se negavam a enxergar?
O máximo que conseguiu foi um resto de conhaque barato estocado há muito, dos tempos em que não precisava de tudo isso. Uma dose. Duas. Três. O mundo. Inacreditável lhe pareciam os sentimentos, por vezes nefastos, que aos outros eram tão comuns. Comuns e sórdidos. Tolos e injustificáveis.
Naquela noite em que se encontraram nenhum céu fora prometido. Nem mesmo o prazer. Prazer que não veio, apenas dor. Por tão pouco entregaria seus dias. Por tão pouco quase entregara a vida. Exagero. Não teria sequer entregado algumas horas. Mas não importava. O ódio existia, tal qual o vexame de uma prova não ganha.
Perdera demais o seu tempo. Atitudes vazias, quase impensadas, vez ou outra lhe revolviam as entranhas e retomavam seus lugares em seu pensamento. Perdia muito tempo com eles. Tão incansáveis em pensar. E rodavam, perscrutavam, invadiam as horas, os dias, os poros. Nunca uma alma haveria de ser tão marcada.
E não era. Sabia que havia momentos cruéis. Estava preparada. Mas nunca se está preparado para aquilo que não se quer. Temos vagas idéias, boatos ouvidos em conversas alheias, tão distantes e efêmeros que não chegam a fazer diferença quando é o sol que ilumina o horizonte. Não. A preparação não existe. O "saber-agir" é desacreditado quando a realidade é mais forte. E ela sempre é. Sempre será.
O que aquece a noite não é a companhia, é a solidão. Solidão que queima a garganta, quando sorvida de um gole só. Uma dose. Duas. Três. A vida. Antes fosse outra, antes fosse nova. Agora tudo não passam de erros. Seguidos, um atrás do outro, que atormentam as horas, colidem no escuro. O escuro que é o futuro.
A certeza do que é dito se esvaiu. O pó não apaga o fogo. Não esse fogo. Que queima. Uma dose. Duas. Muito mais que três em um dia. Quebrar um copo não quebra um erro. Quebrar dois, três, sete, porém, não quebram um sonho. Não quebram forças. Quebram uma mentira. Consertam uma verdade. Mas não quebram uma noite, e muito menos consertam um erro.
Uma dose. Duas. Três. Quebrar um copo não conserta um ódio, mas também não quebra um amor.
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