Pular para o conteúdo principal

Que não devia

Paixão. Que não devia existir. E não existe. Mas é paixão, que passa, que vem e que foi, e que a gente sabe que volta. Mas não devia. É errado. Incrível como nossos sonhos e desejos nos enganam. Horrível como cada ilusão se quebra, estilhaços por aqui e ali. Que se remontam, transfiguram-se, escondem a verdade que a gente não quer pra si.

Inacreditável como aqueles olhos eram leves. Leves demais. Aquele olhar não me olhará de novo. Naqueles olhos eu o procurei, procurei seu nome, sua alma. Mas foi impossível enxergar. Naqueles olhos havia um encanto – mágico e ameaçador – que provoca, me fez tentar, querer beijar.

Abraços que não diziam nada, só diziam que sim. Mãos que deslizaram, suavemente. Mas que não diziam nada, só diziam que sim. Queriam um sim. Um beijo sem gosto, ainda que perfeito. Um arrepio sincero, mas que não falava por quem sussurrava. E as palavras. Foram as piores. Ditas por uma voz que tinha sua própria história, que me contava histórias, me fazia sorrir. Uma voz que ainda ouço. Palavras que ainda lembro e as que não valeram nada.

Não há lamento. Não há rancor. Só há paixão. Que não devia existir. O ódio não tem forças, só o orgulho. Orgulho não se sabe pelo quê. Então não há orgulho. Nem ódio. Só existe o amor e o pesar, a dor da frustração, a paixão por aquele olhar. Aquele olhar. Que não sai da cabeça, do corpo, de mim. Aquele olhar, que não me olhará de novo. De modo algum.
.
.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Exercícios de escrita - Infelicidade comum

A mesa era firme, isso não era possível negar. A madeira não era um compensado, mas também não era rústica. Não que eu entenda de madeira, mas com certeza não era um pedaço de madeira retirado diretamente de sua árvore, houve um processo ali. A madeira foi colhida, cortada, cortada e cortada mais uma vez, depois colada, possivelmente, em cima de outro pedaço de madeira. Talvez seja um compensado. Não que eu entenda de compensado. O fato é que a madeira era boa e a mesa, firme. Era firme. E por que isso é tão importante? Porque toda a sua vida havia sido posta sobre ela. Era a mesa, um monitor e um notebook. Tudo isso era só isso, e vice-versa.  Naquela mesa, por horas, ela ficaria debruçada. Sentada, é claro, em uma cadeira feita da mesma madeira firme não rústica da mesa. Era um conjunto: a mesa, dobrável, a cadeira, dobrável. Pertenceram a um local muito especial para ela.  E por isso, por ali, ficaria horas e horas debruçada, nem se importando com a falta de encosto inteiri...

A complexidade das coisas simples

Se tem algo que é duro e denso e pesado como chumbo é a complexidade das coisas simples - e Kundera já cantara essa bola antes. Ou quase. A diferença é que enquanto uma coisa é pesada ou leve, há um espaço tridimensional que está mais amplo, menos denso, volátil, ao ponto de escapar pelos dedos quando leve, e o inverso quando pesado. Porém, ainda se trata de tangibilidade, de conseguir pegar com a mão, ou não. Mas quando a coisa é simples, significa, em primeiro lugar, que ela existe, ela está dada - tem três dimensões mensuráveis possíveis de serem captadas com os cinco sentidos.  Em segundo, significa que todas as suas partes, premissas, personagens envolvidos na trama - geralmente as do coração -, seguem um roteiro de ações coerente, ação e reação, causa e consequência, isso porque aquilo. Os fatos, manifestados em atitudes, decisões, comportamentos, no mundo externo, no mundo real, são translucidamente simples, modestos, até pequenos ou proporcionais aos outros atos, fatos, ati...

De levezinho

Talvez eu fale sobre isso Talvez Talvez é de você que eu preciso Não de você Mas de mim Da minha alegria, do meu sorriso, do que eu conto e tu acha graça Engraçado O quanto eu te gosto pelo que eu posso Pelo que eu posso te dar, te fazer Te fazer Sentir Sentir é tudo o que eu faço Sentir a mim quando estou com você É disso que eu gosto É isso que eu quero É tão errado assim? O meu melhor no teu pior Mas só enquanto não doer Só enquanto eu não chorar, sem sofrer Só quero amar, de levezinho Me faz caber? No bolso, na sacola Mas eu queria a prateleira inteira Só pra ser minha E de mais ninguém Mas é só capricho, porque eu não quero ficar Não, eu não quero ficar Eu quero ir, eu quero soul Sou livre Pra amar e o amor voltar Pra mim Como duas pessoas que se gostam Na mesma intensidade Reciprocidade.