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Que não devia

Paixão. Que não devia existir. E não existe. Mas é paixão, que passa, que vem e que foi, e que a gente sabe que volta. Mas não devia. É errado. Incrível como nossos sonhos e desejos nos enganam. Horrível como cada ilusão se quebra, estilhaços por aqui e ali. Que se remontam, transfiguram-se, escondem a verdade que a gente não quer pra si.

Inacreditável como aqueles olhos eram leves. Leves demais. Aquele olhar não me olhará de novo. Naqueles olhos eu o procurei, procurei seu nome, sua alma. Mas foi impossível enxergar. Naqueles olhos havia um encanto – mágico e ameaçador – que provoca, me fez tentar, querer beijar.

Abraços que não diziam nada, só diziam que sim. Mãos que deslizaram, suavemente. Mas que não diziam nada, só diziam que sim. Queriam um sim. Um beijo sem gosto, ainda que perfeito. Um arrepio sincero, mas que não falava por quem sussurrava. E as palavras. Foram as piores. Ditas por uma voz que tinha sua própria história, que me contava histórias, me fazia sorrir. Uma voz que ainda ouço. Palavras que ainda lembro e as que não valeram nada.

Não há lamento. Não há rancor. Só há paixão. Que não devia existir. O ódio não tem forças, só o orgulho. Orgulho não se sabe pelo quê. Então não há orgulho. Nem ódio. Só existe o amor e o pesar, a dor da frustração, a paixão por aquele olhar. Aquele olhar. Que não sai da cabeça, do corpo, de mim. Aquele olhar, que não me olhará de novo. De modo algum.
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