publicado originalmente no jornal laboratório Zero
O cenário: Um bar razoável, mais para capenga do que razoável, mas era perto de casa. A cerveja nem era tão barata, mas a batata era boa e o garçom já era amigo. Eu, meu namorado e mais uns cinco amigos dele, todos homens, reunidos numa mesa amarela da Skol para quatro pessoas. O assunto: futebol. Mais especificamente, a Copa do Mundo.
- Pô, o Dunga se superou. Velho, o Kleberson, o Kleberson!
- É, eu não esperava outra coisa do Dunga. Mó turrão, cabeça-dura. É a seleção mais sem graça desde 90.
- Mas o Kleberson, velho. Tive que entrar naquela comunidade “Kléberson doe sua vaga”. Ele é muito ruim, velho.
- E o Ganso meu? Ele e o Neymar eram obrigação!
Ganso, Dunga... Futebol é uma coisa engraçada. É claro que eu já tinha ouvido falar no Dunga, talvez não nesse Dunga, o técnico, mas achei que não estava assim tão por fora do assunto. Numa situação dessas, em que você é a única mulher na roda e, além disso, é a namorada de um deles, você tem que mostrar que está ligada, tem que mostrar o quão boa namorada é. Imagina, além de linda e inteligente, também gosta de futebol. Foi aí que tive a grande idéia de participar da conversa:
- Amor, por que o Ronaldinho não foi convocado?
- Ah! O Dunga não gosta dele. Disse que ele não tava comprometido com a equipe. Mas eu acho – ele disse, virando-se para os demais da roda – que o Dunga tinha que chamar o Ronaldinho Gaúcho. Mesmo não jogando tudo o que pode, ele ainda é melhor do que os outros. E meu...
- Não, amor – o interrompi, tocando no braço – perguntei do Ronaldinho, o fenômeno.
- Ah! – disse ele, jogando a mão pra cima e em seguida alcançando seu copo de cerveja – o Ronaldo! É Ronaldo, não Ronaldinho. Ronaldinho é o Ronaldinho Gaúcho.
- Mas antes do Ronaldinho Gaúcho, o Ronaldo era chamado de Ronaldinho.
- É, mas não é mais.
- Por que não?
E, dando-me um olhar meio decepcionado, meio chocado, querendo dizer “não acredito que você tá perguntando isso”, disse:
- Aqui, amor, bebe essa cerveja.
Ok. Então talvez eu não estivesse assim tão por dentro do assunto. Na verdade, nunca dei muita importância para o futebol. A não ser aos domingos e quartas-feiras, quando meu namorado me deixa em casa e vai assistir aos jogos no Josias. “É que ele tem SporTV, amor”. Sei. Mas o fato é que, até esse momento, Neymar e Kleberson eram apenas mais uns desses jogadores com nomes estranhos. Mas a Copa do Mundo está aí, e meu namorado lá – no Josias. O jeito é arregaçar as calças e sentar a bunda na cadeira: menos de uma semana para entender tudo de futebol.
“Os centrais ou zagueiros têm a função de ajudar o guarda-redes a proteger a baliza, tentando desarmar os atacantes adversários.” Guarda-redes? Baliza? Acho que o nikkeyweb.com.br não é a melhor fonte. Wikipédia, só restou você: “Esquema tático 3-5-2: é o segundo mais utilizado atualmente. Possui um meio-campo com 2 volantes e 2 laterais avançados, sem a obrigação de marcar, sendo denominados alas. Também possui dois centroavantes que recebem bolas cruzadas na área pelos alas...” Uhum, uhum, certo, acho que entendi. Então o 3-5-2 é uma opção mais defensiva que o 4-4-2, já que tem um jogador a mais na defesa, o zagueiro, que é aquele carinha que fica mais no fundo, entre a linha do meio de campo e o gol. Os laterais foram colocados mais para frente, e nesse caso são chamados de alas. Ah, sim. O volante é o cara que faz a ligação entre a defesa e o ataque, anula as jogadas ofensivas do time adversário, sendo que para isso é importante que o jogador se garanta na marcação, mas também precisa ser bom de investida para puxar o contra-ataque.
Aos poucos, e com a ajuda de alguns amigos, as coisas começavam a fazer sentido. Então o Kleberson – volante que, no Flamengo, foi mandado para a reserva – não era tecnicamente ruim. Estava apenas numa má fase. Diferente do Hernanes, do São Paulo, que tem um chute muito bom, está numa boa fase – tanto na marcação como no apoio ao ataque – mas que o Dunga resolveu ignorar.
O cenário: o mesmo bar, mais capenga que razoável, onde a cerveja nem era tão barata, mas a batata era boa e, o garçom, amigo.
- Tô com o Josias. O Ganso era uma das melhores opções do Dunga. É um cara que tem consciência do seu papel no time, sabe? – eu disse, enquanto passava catchup na batata.
- Ah, pára! Injustiça mesmo é não chamar o Neymar. – disse meu namorado, enquanto punha os cotovelos em cima da mesa, ao redor do copo.
- Amor, não viaja. O Neymar é muito cai-cai, super imaturo, tinha mesmo que ficar de fora.
- É, mas pelo menos um o Dunga acertou. Felipe Melo é o melhor jogador dessa seleção. - disse ele.
O silêncio.
E então, olhando-o meio decepcionada, meio chocada, querendo dizer “não acredito que você tá falando isso”, eu disse:
- Aqui, amor, bebe essa cerveja.
O cenário: Um bar razoável, mais para capenga do que razoável, mas era perto de casa. A cerveja nem era tão barata, mas a batata era boa e o garçom já era amigo. Eu, meu namorado e mais uns cinco amigos dele, todos homens, reunidos numa mesa amarela da Skol para quatro pessoas. O assunto: futebol. Mais especificamente, a Copa do Mundo.
- Pô, o Dunga se superou. Velho, o Kleberson, o Kleberson!
- É, eu não esperava outra coisa do Dunga. Mó turrão, cabeça-dura. É a seleção mais sem graça desde 90.
- Mas o Kleberson, velho. Tive que entrar naquela comunidade “Kléberson doe sua vaga”. Ele é muito ruim, velho.
- E o Ganso meu? Ele e o Neymar eram obrigação!
Ganso, Dunga... Futebol é uma coisa engraçada. É claro que eu já tinha ouvido falar no Dunga, talvez não nesse Dunga, o técnico, mas achei que não estava assim tão por fora do assunto. Numa situação dessas, em que você é a única mulher na roda e, além disso, é a namorada de um deles, você tem que mostrar que está ligada, tem que mostrar o quão boa namorada é. Imagina, além de linda e inteligente, também gosta de futebol. Foi aí que tive a grande idéia de participar da conversa:
- Amor, por que o Ronaldinho não foi convocado?
- Ah! O Dunga não gosta dele. Disse que ele não tava comprometido com a equipe. Mas eu acho – ele disse, virando-se para os demais da roda – que o Dunga tinha que chamar o Ronaldinho Gaúcho. Mesmo não jogando tudo o que pode, ele ainda é melhor do que os outros. E meu...
- Não, amor – o interrompi, tocando no braço – perguntei do Ronaldinho, o fenômeno.
- Ah! – disse ele, jogando a mão pra cima e em seguida alcançando seu copo de cerveja – o Ronaldo! É Ronaldo, não Ronaldinho. Ronaldinho é o Ronaldinho Gaúcho.
- Mas antes do Ronaldinho Gaúcho, o Ronaldo era chamado de Ronaldinho.
- É, mas não é mais.
- Por que não?
E, dando-me um olhar meio decepcionado, meio chocado, querendo dizer “não acredito que você tá perguntando isso”, disse:
- Aqui, amor, bebe essa cerveja.
Ok. Então talvez eu não estivesse assim tão por dentro do assunto. Na verdade, nunca dei muita importância para o futebol. A não ser aos domingos e quartas-feiras, quando meu namorado me deixa em casa e vai assistir aos jogos no Josias. “É que ele tem SporTV, amor”. Sei. Mas o fato é que, até esse momento, Neymar e Kleberson eram apenas mais uns desses jogadores com nomes estranhos. Mas a Copa do Mundo está aí, e meu namorado lá – no Josias. O jeito é arregaçar as calças e sentar a bunda na cadeira: menos de uma semana para entender tudo de futebol.
“Os centrais ou zagueiros têm a função de ajudar o guarda-redes a proteger a baliza, tentando desarmar os atacantes adversários.” Guarda-redes? Baliza? Acho que o nikkeyweb.com.br não é a melhor fonte. Wikipédia, só restou você: “Esquema tático 3-5-2: é o segundo mais utilizado atualmente. Possui um meio-campo com 2 volantes e 2 laterais avançados, sem a obrigação de marcar, sendo denominados alas. Também possui dois centroavantes que recebem bolas cruzadas na área pelos alas...” Uhum, uhum, certo, acho que entendi. Então o 3-5-2 é uma opção mais defensiva que o 4-4-2, já que tem um jogador a mais na defesa, o zagueiro, que é aquele carinha que fica mais no fundo, entre a linha do meio de campo e o gol. Os laterais foram colocados mais para frente, e nesse caso são chamados de alas. Ah, sim. O volante é o cara que faz a ligação entre a defesa e o ataque, anula as jogadas ofensivas do time adversário, sendo que para isso é importante que o jogador se garanta na marcação, mas também precisa ser bom de investida para puxar o contra-ataque.
Aos poucos, e com a ajuda de alguns amigos, as coisas começavam a fazer sentido. Então o Kleberson – volante que, no Flamengo, foi mandado para a reserva – não era tecnicamente ruim. Estava apenas numa má fase. Diferente do Hernanes, do São Paulo, que tem um chute muito bom, está numa boa fase – tanto na marcação como no apoio ao ataque – mas que o Dunga resolveu ignorar.
O cenário: o mesmo bar, mais capenga que razoável, onde a cerveja nem era tão barata, mas a batata era boa e, o garçom, amigo.
- Tô com o Josias. O Ganso era uma das melhores opções do Dunga. É um cara que tem consciência do seu papel no time, sabe? – eu disse, enquanto passava catchup na batata.
- Ah, pára! Injustiça mesmo é não chamar o Neymar. – disse meu namorado, enquanto punha os cotovelos em cima da mesa, ao redor do copo.
- Amor, não viaja. O Neymar é muito cai-cai, super imaturo, tinha mesmo que ficar de fora.
- É, mas pelo menos um o Dunga acertou. Felipe Melo é o melhor jogador dessa seleção. - disse ele.
O silêncio.
E então, olhando-o meio decepcionada, meio chocada, querendo dizer “não acredito que você tá falando isso”, eu disse:
- Aqui, amor, bebe essa cerveja.
Comentários
Beijos
Fer