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A diferença entre uma latinha e o nada

Foram duas latinhas aquela noite. Duas cans geladas e gotejantes do mais puro sabor holandês. Um gole vinha e descia, devagar e intenso, preenchendo cada célula disponível de água, cevada e torpor. Simples prazer. Um gole seguido do outro e, de repente, o ambiente que já era bastante bom tornou-se um dos lugares mais interessantes do planeta. Digno de êxtase, diria. Um êxtase que há muito não se sentia.

Entre os goles cheios e as risadas, os olhares teimavam por escapar dos rostos amigos falantes. Não, eles não conseguiam deixar de olhar, olhar e marcar profundamente na memória (coração?) aqueles cabelos compridos. Era muito mais que o cabelo. O mais rápido relance da história dos amores à primeira vista (exagero) desencadeou aquela enxurrada de pensamentos, sentimentos, atrevimentos (ainda que não passassem de meros desejos de uma mente tomada pelo encantamento).

O nariz era delicado, o rosto meio moleque, o cabelo liso da cor da terra. Terra que pareceu estremecer quando seus ombros quase se encontraram (ou foram as pernas?). Não importa. O mundo tinha acabado de voltar a girar. E era colorido.

A música parecia saber de tudo que se passava naquela cabecinha delirante, e os solos da guitarra arquitetavam juntamente com os vocais e o baixo um plano para que seus desejos e devaneios se tornassem realidade. Mas não essa realidade bruta e má e mal-encarada que parecia acostumada e maliciosamente satisfeita em sabotar as expectativas alheias.

Por isso, outra lata veio. A cerveja, agora, começava a ganhar e a realidade já não parecia mais tão invencível. Quem sabe, por sorte, os olhares se encontrassem e talvez, sem timidez, pudessem trocar as palavras mais importantes que se poderia dizer naquele momento - mas perfeitamente pronunciadas sem som algum, na língua do silêncio (um dos idiomas mais lindos de que se tem notícia).

Mas os goles foram diminuindo. A música ganhando ritmo. Os pensamentos se tornando mais impensáveis. Por fim, os goles terminaram. A música, continuava. Os pensamentos, perdiam força. Mas o encantamento, esse não! O encantamento ainda estava lá, naquele cabelo, naquele rosto, nos olhos fechados enquanto a música ia criando sentido nos ouvidos e desembocando naquele corpo que dançava e cantava e existia.

Mas foram duas latinhas naquela noite. Duas latinhas que permitiram àquele coraçãozinho uma partícula de esperança apenas. Duas latinhas e nada mais. Que não viveram o suficiente para dar coragem àquelas pernas para que caminhassem na direção da felicidade, do encantamento, dos cabelos compridos. O sabor do beijo ficou na imaginação. A força das mãos e do abraço não passaram de chutes nem de longe estatísticos. A possibilidade do "tudo" ficou restrita ao universo de amostragem dos amores que poderiam ter sido, mas que não foram.

Quem sabe, talvez, se tivessem sido três latinhas, geladas e gotejantes, preenchendo cada célula disponível de água, cevada, torpor e coragem. Simples amor.

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