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dois jägers e duas tequilas

Quando saía, queria ser vista. Claro. Embora sua altura não contribuísse, sempre sentia que aquela sombra ou aquela roupa ia fazer efeito. Bom, nem sempre fazia. O motivo? Sempre o mesmo. Todas as suas amigas o tinham na ponta da língua. Inclusive ela mesma. Mas não é algo que se mude da noite para o dia. Ou melhor, do dia para “A noite”. Não. Aqueles pensamentos indesejáveis (sim, indesejáveis, ela não queria tê-los) pareciam agir como seres controladores ou como qualquer coisa que estivesse ali, sempre por perto, somente para julgá-la e condená-la, como se dissessem “não, você não o tem direito de se sentir bem”. Estranho? Demais. Ela sabia. Mas ela sabia também que esses pensamentos não estiveram sempre ali, no controle. Não. Um dia, eles não existiam. Um dia, há muito tempo, ela nem sonhava que poderia se sentir tão fraca, tão desinteressante.

Há muito tempo, ela sorria com mais facilidade. Na verdade, tinha crises de riso com tanta freqüência que, aos olhos dos outros, ou ela era louca ou sua vida era incrivelmente perfeita. Talvez fosse louca. Há muito tempo, era vista sempre com muita admiração. Pelos amigos, pelos professores. Era vista como a irmã mais velha, “cabeça”, até sábia. Sempre se destacou por sua inteligência (apesar das notas que, muitas vezes, pareciam querer dizer o contrário). Enfim, sempre se destacou por ser ela mesma.

Por ser ela mesma. Era por isso que nunca havia reparado ou se preocupado com sua aparência. Não que não ligasse para vaidades. Não. Mas é que valores como “beleza” nunca lhe foram “ensinados”. Vivia alheia a isso. E era feliz. Por ser ela mesma.

Mas isso tudo foi há muito tempo atrás. Ela não sabe dizer como tudo mudou. Não sabe em que direção as coisas aconteceram, se de dentro pra fora ou de fora pra dentro. O fato é: perdeu a confiança em si mesma. E nem sombra, nem roupas podiam resolver o problema.
Foi então que as coisas começaram a mudar. De novo.

Tirou o aparelho. Emagreceu. Foi pra universidade. Aprendeu a beber.
Curada? Não totalmente.
Foi o aparelho? Em parte.
Foi por ter emagrecido? Ajudou bastante.
Por entrar na universidade? Na verdade, isso acabou se tornando motivo para recaídas.
Mas então, o quê?

Aprendeu a beber.
Com o tempo, percebeu que dois jägers e duas tequilas podiam lhe trazer de volta aquela confiança. Percebeu que a mistura encontrava um caminho dentro de si, um caminho que a levava até às suas idéias e convicções outrora descartadas por acreditar serem simples demais. Percebeu, principalmente, que ainda podia ser vista.
Mas é claro, todos sabem. Beber desinibe. Desinibe qualquer um a ser qualquer coisa.
Não é nada mágico, nem um remédio.
Mas não contem isso a ela.

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Comentários

Rafael Hertel disse…
Mesma coisa dizia Raul quando aparecia nos hotéis bebendo uma dose de suco de laranja com muita vodka.

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