Entrei no ônibus. Eram 6:46 de uma manhã de inverno. Com as pálpebras ainda lutando contra a inércia do sono, dei bom dia ao cobrador. O sorriso entusiasmado que ele me deu deixou entrever que conhecia empiricamente minha batalha matutina.
Como de costume, escolhi um assento do lado esquerdo, na janela, de onde eu poderia executar minha tarefa de juiz sem julgar. Esse era o meu momento. Reunião de pais, conselho de classe, diretor totalitário, tudo isso podia esperar. Assim que eu chegasse ao meu destino logo esses assuntos teriam de volta seus lugares em minha cabeça. Mas não agora. Não.
Do meu assento eu podia observar dois mundos: Um que corria lá fora, louco, apressado, numa harmonia abstrata regida pelo caos. O outro era contido. Forçadamente contido. Alguns moradores do ônibus não se preocupavam. Riam, discutiam sobre colesterol, davam conselhos às mães cujos bebês choravam. Mas a maioria recolhia-se a murmúrios ternos, a pedidos quase inaudíveis de com licença. E eu fazia parte da maioria.
A viagem até a escola dura uma hora. Muito mais do que o necessário, e muito menos do que eu gostaria, porque era ali, dentro de um ônibus, que tudo podia acontecer, mas não acontecia. Dada a devaneios, eu gostava de criar situações ilusórias, até irrisórias, mas não como a de hoje, em que um homem estranho veio para o mundo de dentro.
Suspeito. Foi o que decidi que seria o sujeito de touca e agasalho azul marinho passando pela catraca e cobiçando um lugar vago que não encontrou. Meu assento não ficava no fundo para onde achei que ia o homem, de modo que ele coçava a orelha a três bancos de distância. A barba por fazer mais revelava do que escondia uma cicatriz no queixo, daquelas brancas em alto relevo.Os olhos caídos que não paravam quietos esbarraram com os meus. Por um momento achei que o mundo havia sumido. Vi-me sentada, empertigada, obrigada por forças inexplicáveis a sustentar um olhar que eu não desejava. O rosto ameaçador do homem me provocou repulsa, seguida por um arrepio que não teve força para tornar-se concreto. No entanto, com minha prática nesse ofício de observar, cujo um dos atrativos era justamente a possibilidade de ser pega, desviei a vista sem revelar qualquer sentimento. Pura dissimulação. (Capitu sentiria inveja).
Aquele segundo de intimidade pôs a pulga em seu lugar. Será que o homem imaginava que seu olhar o traía? Que nenhuma luz néon podia deixar mais claras suas intenções? Talvez fosse um novato. Alguns assaltantes poderiam achar fácil começar com um ônibus desprevenido, não sei, não entendo de assaltantes, mas entendi aquele olhar.
Instantes depois, percebi que o homem olhava para trás de si, procurando chamar a atenção de um outro rapaz que enfim respondeu. O homem foi em sua direção, trocaram palavras, não! Eram códigos.
- O padrinho já tá em cima, véio, Ele qué as medida dos tecido.
- Por que tu acha que tamo nessa? É pra comprá os tecido, meu.
Tive certeza de que o padrinho era o chefe, e o tecido um contrabando. Provavelmente armas. Queriam o dinheiro para pagar por elas. Mas que fosse qualquer contrabando, não importa, não estavam brincando. Será que haveria tiros? Feridos? Não ousei continuar o pensamento.
O som das batidas eufóricas do meu coração avisou-me cedo demais que eu estava entrando pânico. (Que me deixasse em pânico na hora certa, oras! Odeio sofrer antecipadamente.) Pensei em descer do ônibus, mas a coragem já havia desembarcado, afinal, eu poderia ser o pretexto para que o homem avançasse com violência sobre o mundinho que se comportava.
E agora Capitu? Seria minha vez de ser traída pelos olhos? Era. O cobrador percebeu que eu estava agitada mesmo sem ter mexido um músculo. Imaginei se mais alguém notara o que estava para acontecer, mas parecia que somente o meu coração conhecia a música. E ela não era de amor.
Num movimento brusco, o homem e o rapaz se levantaram. É agora. A música era um solo e eu quase podia enxergá-la. O rapaz tirou uma pistola debaixo da camisa. É agora. Um acorde alucinante se derramou em lágrima. É agora. O homem gritou um uivo rasgado e segurava uma faca na mão. PARADOS!
E então desembarcaram.
Quando acordei, vi o cobrador me olhando com surpresa. Uma mãe que estava ao seu lado discutia com alguém para que chamassem um médico.
- Não, a moça acordou. Você está bem?
Eu estava?
- O assalto! - eu exclamei, assustando os curiosos tão eficientes em opinar, mas sem talento para socorros.
O assalto. Levantei-me do assento, dispensei os cuidados e puxei o cobrador pelo braço. Não houve arma, nem faca, nem uivos.
- No que estava pensando moça?
Em nada, cobrador. Em nada.
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Como de costume, escolhi um assento do lado esquerdo, na janela, de onde eu poderia executar minha tarefa de juiz sem julgar. Esse era o meu momento. Reunião de pais, conselho de classe, diretor totalitário, tudo isso podia esperar. Assim que eu chegasse ao meu destino logo esses assuntos teriam de volta seus lugares em minha cabeça. Mas não agora. Não.
Do meu assento eu podia observar dois mundos: Um que corria lá fora, louco, apressado, numa harmonia abstrata regida pelo caos. O outro era contido. Forçadamente contido. Alguns moradores do ônibus não se preocupavam. Riam, discutiam sobre colesterol, davam conselhos às mães cujos bebês choravam. Mas a maioria recolhia-se a murmúrios ternos, a pedidos quase inaudíveis de com licença. E eu fazia parte da maioria.
A viagem até a escola dura uma hora. Muito mais do que o necessário, e muito menos do que eu gostaria, porque era ali, dentro de um ônibus, que tudo podia acontecer, mas não acontecia. Dada a devaneios, eu gostava de criar situações ilusórias, até irrisórias, mas não como a de hoje, em que um homem estranho veio para o mundo de dentro.
Suspeito. Foi o que decidi que seria o sujeito de touca e agasalho azul marinho passando pela catraca e cobiçando um lugar vago que não encontrou. Meu assento não ficava no fundo para onde achei que ia o homem, de modo que ele coçava a orelha a três bancos de distância. A barba por fazer mais revelava do que escondia uma cicatriz no queixo, daquelas brancas em alto relevo.Os olhos caídos que não paravam quietos esbarraram com os meus. Por um momento achei que o mundo havia sumido. Vi-me sentada, empertigada, obrigada por forças inexplicáveis a sustentar um olhar que eu não desejava. O rosto ameaçador do homem me provocou repulsa, seguida por um arrepio que não teve força para tornar-se concreto. No entanto, com minha prática nesse ofício de observar, cujo um dos atrativos era justamente a possibilidade de ser pega, desviei a vista sem revelar qualquer sentimento. Pura dissimulação. (Capitu sentiria inveja).
Aquele segundo de intimidade pôs a pulga em seu lugar. Será que o homem imaginava que seu olhar o traía? Que nenhuma luz néon podia deixar mais claras suas intenções? Talvez fosse um novato. Alguns assaltantes poderiam achar fácil começar com um ônibus desprevenido, não sei, não entendo de assaltantes, mas entendi aquele olhar.
Instantes depois, percebi que o homem olhava para trás de si, procurando chamar a atenção de um outro rapaz que enfim respondeu. O homem foi em sua direção, trocaram palavras, não! Eram códigos.
- O padrinho já tá em cima, véio, Ele qué as medida dos tecido.
- Por que tu acha que tamo nessa? É pra comprá os tecido, meu.
Tive certeza de que o padrinho era o chefe, e o tecido um contrabando. Provavelmente armas. Queriam o dinheiro para pagar por elas. Mas que fosse qualquer contrabando, não importa, não estavam brincando. Será que haveria tiros? Feridos? Não ousei continuar o pensamento.
O som das batidas eufóricas do meu coração avisou-me cedo demais que eu estava entrando pânico. (Que me deixasse em pânico na hora certa, oras! Odeio sofrer antecipadamente.) Pensei em descer do ônibus, mas a coragem já havia desembarcado, afinal, eu poderia ser o pretexto para que o homem avançasse com violência sobre o mundinho que se comportava.
E agora Capitu? Seria minha vez de ser traída pelos olhos? Era. O cobrador percebeu que eu estava agitada mesmo sem ter mexido um músculo. Imaginei se mais alguém notara o que estava para acontecer, mas parecia que somente o meu coração conhecia a música. E ela não era de amor.
Num movimento brusco, o homem e o rapaz se levantaram. É agora. A música era um solo e eu quase podia enxergá-la. O rapaz tirou uma pistola debaixo da camisa. É agora. Um acorde alucinante se derramou em lágrima. É agora. O homem gritou um uivo rasgado e segurava uma faca na mão. PARADOS!
E então desembarcaram.
Quando acordei, vi o cobrador me olhando com surpresa. Uma mãe que estava ao seu lado discutia com alguém para que chamassem um médico.
- Não, a moça acordou. Você está bem?
Eu estava?
- O assalto! - eu exclamei, assustando os curiosos tão eficientes em opinar, mas sem talento para socorros.
O assalto. Levantei-me do assento, dispensei os cuidados e puxei o cobrador pelo braço. Não houve arma, nem faca, nem uivos.
- No que estava pensando moça?
Em nada, cobrador. Em nada.
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