Vim aqui dizer que o Dia Internacional da Mulher é comemorado pelo motivo errado. A meu ver, um dia que é dedicado inteiramente à mulher deveria ser um dia em que se reconheçam qualidades exclusivamente nossas. As lutas feministas que reivindicavam melhores condições de trabalho no final do século do XX não se caracterizam como ações estritamente feministas, no sentido belo e delicado da palavra. Qualquer ser humano, independente do gênero, pode sair por aí protestando por algo que deveria ser condição básica assegurada por quem contrata.
Tampouco as lutas por melhores salários e maior reconhecimento profissional se encaixam no que eu chamaria de “pré-requisito feminístico” (o neologismo é por minha conta). Se assim fosse, além do dia da criança (e aqui caberia um bônus para as crianças chinesas) e da consciência negra, também haveria de se comemorar o dia mundial do bóia-fria e dos catadores de lixo.
E vamos mais além. As lutas das mulheres pelos seus direitos continuam no campo político, culminando na conquista do direito ao voto e se estendendo pelos modelos políticos afora, ao ocuparmos cargos de grande responsabilidade. Ok. Mas se me lembro bem das aulas de história, então os estrangeiros e escravos, considerados pelos gregos antigos como não-cidadãos (com ou sem hífen?) - portanto, sem direitos políticos – poderiam muito bem ter o seu próprio dia, e quem sabe, até um feriadinho pra nos vestirmos de gregos (porque, convenhamos, aquelas fantasias do dia do índio são muito last summer).
Mas daí você pode estar se perguntando por que, então, devemos comemorar o nosso dia (ou, se você for uma feminista no sentido não tão belo e muito menos delicado da palavra, pode estar se perguntando “onde é que você mora que vou aí te dar porrada”).
Calma, é simples. Lutar por seus direitos, isso qualquer pessoa com um senso coletivo apurado é capaz de fazer. Mas ser mulher, não é pra qualquer um. Ser mulher exige uma luta muito maior que todas anteriormente expostas. Exige um temperamento adequado, um instinto materno genuíno. Exige uma força sobre-humana para que não se perca o controle nem a feminilidade quando nos deparamos com a maior injustiça com que já nos defrontamos: ter que agüentar os homens.
Ter que educar, cuidar, dar de comer, ensinar, vestir. Ter que rir das piadas, agüentar a porquisse, aturar as manias. Aceitar as prioridades (quase nunca será nós), tratar bem seus amigos, dividi-lo com suas mães (tá, esse é justo). Tentar entendê-lo, fazê-lo se abrir, contornar seu medo de compromisso.
Acreditem, ter que agüentar-vos é um ato heróico, quase um martírio, que homem nenhum jamais entenderá. Estátuas sejam erguidas para nós.
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