Mesas e cadeiras vermelhas. As janelas fechadas, privando o vento da sua atividade principal que é bagunçar cabelos enquanto sopra guardanapos para longe. Embora todos parecessem concordar com as janelas cerradas, em algum lugar - no interior de seus corações tipicamente humanos - estava contida aquela vontade incontrolável de contrariar o modo como as coisas são e estão pelo simples prazer de contrariar.
- Ai, abre essa janela. Tá muito abafado.
Era isso, e não outra coisa, que a população daquela cantina gostaria de esbravejar, com caretas e gestos de irritabilidade tão peculiares do ato de reclamar. A instatisfação de um dia nublado e choramingante sobrepujava qualquer outro sentimento gentil que tivesse a audácia, teimosia ou petulância de querer aparecer. Não. Não havia permissão nem espaço para gentilezas num dia como esse.
O jeito era tomar um café, garfar um pedaço de torta, se esconder atrás de um croissant. As gentilezas estavam reservadas para as "delícias" padarísticas e lanchoneteiras - pretensamente chamadas de comida - que amançavam os corações e temperamento daqueles que por ali renderam-se a reclamar do tempo.
Um aceno rápido e um sorriso tão espontâneo quanto a iniciativa de lavar um banheiro despista qualquer intenção de aproximação e afabilidades que alguém com um mínimo de tato possa ter tido ao ver um conhecido seu cabisbaixo, debruçado em cima de um bloquinho. Tem gente que (não) entende.
O último gole de café também é o último momento de conformação com as condições meteorológicas. O que resta no copo, fica para as abelhas. O que resta do dia, não fica para ninguém. Amanhã é como se o ontem não tivesse acontecido. Amanhã fará sol e as janelas estarão abertas. O vento bagunçará cabelos e soprará para longe os guardanapos. E embora que todos parecerão concordar com as janelas escancaradas, em algum lugar dentro de seus corações tipicamente humanos estará contida aquela vontade incontrolável de ser feliz.
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