Põe um Motorhead pra parar de pensar, mas não consegue. O
quarto já não era mais suficiente para tantas confissões. Confissões secretas,
porque o amor que ali crescia não era real, não podia ser, era impossível. Mas
nem era amor.
Quando a tarde já estava pegando fogo, - daquele sol de
outono que vem de mansinho, aos poucos, silencioso, mas que invade casas,
quartos, corpos -, naquela tarde, ele já estava pegando fogo. Quando chegou,
queimou tudo. Mas não aquilo que lhe corria pela cabeça.
Da cabeça, ia para o corpo, para dentro da alma, embalado
pelo som que vinha dos fones. Não, vinha do coração. Da vontade de encontrar
tudo o que procurara ali, mas fora dali, em outro lugar, em outra pessoa.
Porque a vida é assim, ela te dá se você desejar, mas dá errado, de
brincadeira, porque a vida tem sono, tem pressa, tem senso de humor.
HAHAHA... não era engraçado. Doía. Doía porque se perdia,
o que acabara de encontrar teria que ser eliminado, erradicado, posto de lado
enquanto seguia. Porque seguiria, ah, seguiria. Para sempre, buscando e não
encontrando, desejando e ganhando ao contrário, em outro lugar, em outra
pessoa. Mas aquela pessoa...
Era tudo, era voz, era riso, era olhar... Não, não se
atreveria a dizer mais, a pensar mais, a desejar mais? Porque não poderia.
Jamais. O que crescia ali era apenas o sol, de outono, que vem de mansinho, aos
poucos, silencioso. Mas ele queima, e invade casas, quartos, corações. Cheios
de desejo, cheios de medo, cheios de...
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